sábado, 28 de janeiro de 2017

Crônicas Centrais - 01 -


O falecido Garrincha, ou Garra para os íntimos, velho bebum do centro de Porto Alegre, mais precisamente frequentador do trajeto de botecos que ia do antigo restaurante Rio de Janeiro do Odelmo, rua Bento Martins com Riachuelo, ao Bar do Dante, quase esquina com as ruas João Manual e  mesma Riachuelo, junto com o também finado Paulista, da Matriz, rua Duque de Caxias e eu decidimos depois de vários birinaites encontrar a casa de espetáculo de um tal de Glabinei. Já em plena Av. Getúlio Vargas, sem encontrar o local, completamos o porre em um bar da região. Um frio de renguear cusco na madrugada de POA. Garrincha bêbado e só com uma camisa de manga comprida já o Paulista chacoalhado pela pinga misturada aos remédios psiquiátricos que tomava, se aquecia em sua jaqueta quente e moderna dada pela mãe. Na volta Garrincha propõe uma troca, sua camisa surrada pela jaca do Paulista, pressenti a confusão. Claro que o maluco não aceitou a troca e na escuridão da avenida, Garrincha, normalmente pacifico tentou tirar na marra a jaqueta do Paulista, se engalfinharam, estou apartando e dando uma dura nos dois quando estaciona um camburão da brigada militar, que chegara na surdina com as luzes apagadas. Descem quatro meganhas já com os cassetetes de pau em punho. Mão na parede, ponta pés de botinas e cutucadas de cassetete nas costelas, começava a tortura. Repentinamente me virei e disse antes de apanhar mais, "sou filho do coronel fulano de tal, da brigada militar", anos noventa e picos, não tinha toda essa informação via rádio e outras tecnologias. Se entreolharam, um tenentinho se aproximou de mim e entre receoso e desconfiado já ia me pedir documentos, o que comprovaria a mentira, citei onde morava dando o endereço verdadeiro do coronel que realmente existia, só que era pai de um amigo de adolescência e não tinha o menor parentesco comigo, continuei falando, aproveitando o despejo de adrenalina que ocorre nessas ocasiões, disse que iria pegar o número da viatura, que queria falar no rádio com o comando e outras balelas ameaçadoras, as quais deixaram o tal tenente e seus praças com uma puta pulga atrás da orelha. E assim, já em um tom respeitoso nos liberaram mandando para casa com recomendações sobre os perigos da noite e coisa e tal.
Paulista e Garrincha rosnaram um para o outro em todo o percurso da volta , ainda tomamos mais algumas até chegar ao centro da cidade.

Eduardo Simch

Obs.: O fato tanto pode ser verídico como pura ficção, fica a critério dos leitores.

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