sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Marluce que comia pedra



                          
Marluce estava na esquina, toda montada, filha de branca com negro tinha a pele clara e os olhos castanhos puxados estilo russa. Clóvis dobrou a esquina dos inferninhos, bem becado, sorriso fácil, cara de bacana, suas roupas de grife chamaram a atenção das putas e dos travecos. Seguiu no gingar do sapato apertado de malandro. Parou na Marluce, conferiu o material de alto a baixo, imediatamente pensou;‘que carroceria’. Quanto é o programa? Perguntou para a mulher. A prostituta de 40 anos, bonita, pesadamente maquiada e no salto vários, aparentava 30 anos tranquilamente. Luce, como era conhecida, já tinha a manha com freguês que vem direto nela e sapecou, 300 reais. Porra mina , tu acha que tu és a miss Brasil? Retrucou Clóvis. Não queres vai andando, vagabundo, que hoje é sexta feira e eu tenho que fazer um troco. Espera, espera, disse o homem agarrando o braço da mulher. Me larga safado, se não quiser tomar umas pregadas, falou Marluce já com algumas colegas se aproximando. Calma princesa, com essa carroceria eu pago 500 por uma noite contigo, falou o malandro. 600 reais aumentou Marluce. Tranquilo, lindona, aceitou Clóvis. Ta feito, disse ela e completando avisou, tem mais 40 do quarto.
Os dois subiram a escadaria e entraram na sala com as madeiras do chão podres e esburacadas, havia um balcão e atrás uma megera velha rebocada que pegou os 40 reais e deu a chave do quarto 22. Entraram, cama de casal com o lençol lustroso de tanta porra seca, uma mesinha de cabeceira, torneira pingando e um abajurzinho com luz fraca no canto, em cima de um puf rasgado. Marluce avisou. Não beijo na boca e por trás é mais 50. Beleza, disse o cliente já desvestindo a moça. Marluce, mesmo mantendo a dureza no trato sentiu certa atração por aquele cara de sorriso fácil e endinheirado que colocou 700 reais em cima da mesa ao lado da cama. Foderam de todas as formas, inclusive com os proibidos beijos. Marluce não gozava assim há meses. Exaustos caíram no sono.
Sem noção de quanto tempo dormiu a puta acordou e não viu nem o homem nem o dinheiro que estava sobre a mesa. Vestiu-se rapidamente, olhou as horas no paraguaio que usava no pulso, 4.20 da madruga.  Desceu correndo as escadas e num quase tombo quebrou o salto de um dos sapatos. Cadê o safado, cadê o safado perguntava quase gritando para as colegas de quadra. Olenca, um travesti se aproximou e disse; saiu faz umas duas horas, bem tranquilo, dobrou a esquina. Ou fugiu ou foi no Cokk Club.
O Cokk Club era o puteiro mais chique da zona, só entrava endinheirados, na maioria executivos. A prostituta roubada, capengueando com um salto quebrado foi às pressas para lá.
Juarez e Osvaldão, dois PMS, faziam bico de segurança na portaria do Cokk. Juarez mais baixo e troncudo tinha 1,90m e Osvaldão 2,20 de altura. A noite estava tranquila para eles, nem uma alteração, as meninas ‘universitárias’ serviam os fregueses com dedicação. Tudo normal como Cigano, o patrão, gostava.
Marluce, com sangue nos olhos tentou passar entre os dois armários que faziam a portaria do Cokk. Foi barrada. Que isso vagaba, disse o Juarez, aqui é só gatinha universitária, puta de rua não entra.  Universitária é o caralho, eu conheço esse 171 das piranhas novas.  Eu vou entrar aí de qualquer jeito, pois tem um puto que comeu meu rabo a noite toda e fugiu para cá enquanto eu dormia, sem me pagar, gritou a mulher.  Olha aqui, vagabunda, disse Juarez, se tu não saíres daqui agora te baixo o cacete que nem a puta velha da tua mãe vai te reconhecer. Baixa porra nenhuma, negão. Eu é que vou caguetar vocês para o tenente que faz a ronda aqui na área e é meu cliente, pois PM, funcionário público, não pode fazer bico por fora, disse ela. Juarez foi para cima da mulher, mas Osvaldão esticou o braço e mandou. Calma aí, Juarez, essa piranha pode nos arrumar confusão. E se dirigindo a Luce falou, Já são quase 5 horas, Marluce, agora tu sabe o meu nome né negão? Falou a prostituta. Osvaldão, bem calmo disse; nos chamar de negão é racismo, é crime inafiançável, tu queres ir em cana? Segura essa língua e espera a clientela começar a sair, se o salafra tiver aí dentro nós te damos um apoio. Mas Marluce estava indignada e gritou, eu vou entrar é agora e pegar o meu dinheiro, não vou esperar porra nenhuma.  Então temos um problema, disse Osvaldão, Juarez já estava bufando e falou; deixa eu arrastar essa cadela até o beco e encerro o assunto. Não. Decretou o grandão. Só o que nos faltava é um corpo aqui do lado da boate. O quê? Disse Marluce transtornada.  Eu sou roubada, assaltada, violentada e os polícias cometendo irregularidades podendo ser expulsos da corporação, além de ficarem do lado do ladrão me ameaçam de assassinato? Vão se fuder seus negão filhos de uma puta!
A chapuletada de mão veio de cima para baixo e a mulher desabou no chão abrindo outra buceta, agora na cabeça. Tu ta louco Juarez, tu quer foder com tudo, disse Osvaldão. A gritaria não chamou a atenção de quem estava na boate, pois tem isolamento sonoro, mas chamou a atenção das putas de rua e dos travecos que já vieram com tijolos, paus, facas e navalhas. Osvaldão puxou a Glock 45 e o Juarez o Shimitão 38. O mais alto avisou com um vozeirão de assustar academia de boxe, o primeiro que atravessar a rua leva um pipoco no meio do melão. A catrafa ficou parada. Ele continuou. Vem uma puta só aqui. Recauchuta a maquiagem dela, limpa o sangue e empresta o sapato que eu vou entrar junto com a Luce e conversar com o meliante na surdina. Isso se ele estiver aqui dentro mesmo. Juarez olhava admirado para o colega.
Marluce atordoada pela batida da cabeça no paralelepípedo da rua seguia Osvaldão no som ensurdecedor da boate. Jogo de luzes, globo de estrelas circulando, ela mal conseguia caminhar. Cigano, sentado no mezanino, viu seu segurança e a mina cambaleante no meio do salão e não gostou. Chamou a equipe interna e ordenou que trouxessem os dois até ele. Lá em cima Osvaldão cochichou no ouvido do chefe. Marluce disse, e aí Cigano, cada vez mais rico. Cigano se levantou puxou uma cadeira e falou no ouvido da mulher, tu continuas tão bonita como 20 anos atrás quando trabalhavas para mim. Nesse momento, Luce olhou para frente e deu de cara com o sorriso simpático de Clóvis, sentado na mesma mesa do Cigano, não teve dúvidas, como uma gata raivosa enfiou-lhe um copo de uísque nas fuças, fazendo a meleca jorrar. Os seguranças imediatamente pegaram a prostituta e o retalhado e levaram para o escritório do Cigano, que não moveu um músculo permanecendo com um sorriso no rosto. Passados alguns minutos o chefão entrou no escritório, Marluce e Clóvis, sentados frente a frente e devidamente agarrados pelos seguranças tentavam sem sucesso se libertar dos músculos dos capangas. Qualé Osvaldão, que banzé é esse na minha casa de show? Disse o dono. Clóvis lembrava o vilão Coringa dos quadrinhos do Batman, com o talho da boca quase até a orelha, o terno cinza e a camisa branca empapadas de sangue. É o seguinte chefia o playboy aí fez e aconteceu com a boca, a checheca e o rabo da Marluce e saiu sem pagar. É verdade isso, Clóvis, perguntou Cigano. O homem tentou falar, mas só saiu mais uma golfada de sangue.
Pode perguntar para a Zuleide do motel, para as putas e os travecos todos viram nós entrarmos. Cigano coçou o queixo e proferiu, Osvaldão, pega o Zezinho, o Alemão Barra e trás a Zuleide, dois travecos e duas putas, mas as de fé, não trás as viciadas de crack. Os gorilas zarparam como quem pisa em brasa. Aqui cabe uma observação, o ‘Zezinho’ tinha 2 metros de altura e pesava 150 kg. Com frequência, os habitantes da noite faziam arruaças, brigas, discussões e todo o tipo de confusão na frente do Cokk Club e quando a coisa ficava demais descia o Zezinho. Agora, putas, travestis e a ladroagem que se aglomeravam do outro lado da rua em solidariedade a colega dispersaram rapidinho quando viram a montanha de músculos sair pela porta, ainda mais acompanhado do Barra e do Osvaldão.
Zezinho quase quebrou a perna em um degrau podre do madeirume da escada do puteiro da velha Zuleide. Já chegou de ‘bom humor’, pegou a Zuleide pelas crinas e arrastou a senhora escada abaixo, a peruca ficou pelo caminho mostrandoos cabelos brancos, Osvaldão mais diplomático convenceu duas putas das antigas e o Alemão Barra meteu o 45 nas fuças de dois travecos, sendo um deles a Olenca e arrastaram a fauna pela porta dos fundos do Cokk Club até o escritório do Cigano.
Com todos na sala confirmando o acontecido, Cigano ordenou, bota essa escória para andar. A trupe da noite voltou para a rua pela escada dos fundos abaixo de bofetão, coronhada e bico no rabo.
Com calma, Cigano pôs uma cadeira na frente do Clóvis e sem dizer palavra esticou a mão espalmada. Clóvis, fraco pela perda de sangue, mas com a adrenalina à mil, meteu a mão no bolso e tirou os setecentos reais da Marluce e colocou na mão do dono da boate. Esse atirou a grana no colo da mulher e voltou a sentar na frente do 'Coringa' Clóvis e com a mão estendida novamente disse, éramos amigos, tu eras um bom freguês, mas agora a coisa mudou, safado. Passa tudo que tu tens. Clóvis entregou a carteira e depois foi virado de cabeça para baixo e sacudido, nos sapatos acharam mais dois mil embaixo das palmilhas do malandro. Cigano deu mais mil reais para a puta e disse, presta bem atenção. Isso nunca aconteceu e tu nunca estiveste aqui. Compreendes muchacha? Luce balançou a cabeça afirmativamente. Zezinho, disse o chefe, leva a donzela para a quadra que lá que é lugar de puta velha.
Quando só restou na sala Clóvis, Cigano, Osvaldão e Alemão Barra, o chefe disse, levem o nosso Don Juan para ver o nascer do sol. Clóvis quis murmurar mais alguma coisa, mas o pé de cabra que o Osvaldão lhe acertou na cabeça fez com que ele jamais murmurasse, falasse ou existisse.
Sozinho no aposento, Cigano cheirou uma carreira de cocaína e pelo interfone disse para a gerente Ondina, mande duas ‘universitárias’ com balde, desinfetante e todo material de limpeza que isto aqui está precisando de uma faxina geral.

Fim