segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tinta


Acrílica s/ papel
Poesia: Eduardo Simch

Tinta

No atelier o som do computador
Toca velhas músicas na jovem rádio
O pintor cosa as picadas dos mosquitos
A tinta escorre do pincel como se dinheiro para compra-la fosse farto
A obra está pronta, só falta existir
Assim como a paz e o fim da fome no mundo

Um inseto cai no copo de bebida
O artista o engole junto com a cerveja morna
Tudo é demorado, com exceção do tempo
Esse senhor que nos leva das fraldas a mortalha
Uma pincelada é necessária para que outras a acompanhem

A morte apareceu na tela reluzente da máquina nova
O rock and roll começou a mostrar que não era para homens velhos
Arte, outra música ou fugir da morte?
Um pássaro bateu no vidro, namorando o próprio reflexo
Vivo, quero continuar vivo dizia o pássaro antes de cair exausto no chão.

As janelas estão abertas
As portas e frestas também, porque morrer?
Sem muito cuidado a ave foi atirada nas sombras da noite
Sumiu na escuridão da floresta.
A escuridão da floresta só é boa para os pássaros e os pintores



sábado, 20 de dezembro de 2014

O 4º E





O 4º E
Os sete pontos na sobrancelha ainda doíam quando a ambulância o deixou na instituição. Pedro ia para seu terceiro internamento por álcool e drogas, sentia que as coisas não iam bem e que seu horizonte era nebuloso. Na chegada ao hospício, bêbado brigou com um enfermeiro e em consequência foi direto para a ala de contenção, o famigerado 4°E. A ala de contenção do hospital psiquiátrico abrigava pacientes com histórico de violência, tentativa de suicídio, dependência química pesada e graves doenças mentais, além de servir de trânsito para presos do manicômio judiciário a espera de audiências e menores infratores que participaram de motins em suas instituições correcionais. Depois de medicado custou a achar o dormitório que era um dos últimos da grande galeria. No recinto havia uma janela gradeada por fora de onde pendiam trapos atirados por internos da “Freud”, ala que ocupava o andar superior. Havia três beliches e duas camas de ferro, ao lado da porta um beliche com a cama de baixo desocupada, porém sem lastro nem colchão. Forte cheiro de urina mal disfarçado por desinfetante. Na enfermaria o atendente lhe dera cobertores, lençóis e um travesseiro, além de ordenar que tomasse banho e vestisse o puído uniforme do 4º E, recomendando-lhe silêncio e ressaltando em tom ameaçador que ali havia regras. Na impossibilidade de dormir no chão úmido e gelado o homem voltou até a sala da enfermaria no início do corredor. Emerson, o enfermeiro, fazia anotações em um fichário. Quando o viu quis logo saber o porquê de este não estar dormindo, Pedro respondeu que não havia colchão nem lastro na cama. O enfermeiro, levantando-se e abrindo a meia porta estilo balcão mandou o interno entrar, e disse em tom baixo, mas extremamente autoritário: A distribuição de colchões e demais artefatos é feita durante o dia, quem é internado a noite dorme como puder, não fazemos preparativos durante a madrugada e, além disso, você não está dormindo porque não tomou o remédio e sim o cuspiu fora, se na medicação da manhã isso se repetir eu mesmo lhe aplicarei um sossega-leão na veia do pescoço que te fará dormir por dias. O recém chegado não disse nada, então o atendente apontou uma porta ao lado do banheiro dos funcionários e disse: Ali tem colchões, pegue um. Haviam seis colchões em estado razoável, três só na espuma e um quase novo que foi o escolhido. Tomou banho, vestiu a roupa e pôs o colchão no chão, dentro do buraco sem lastro no espaço de baixo do beliche. Um grupo de garotas de babydol corria e saltitava pelo corredor. Uma sirene tocou interrompendo seu sonho, abriu os olhos, a faxineira adentrou o quarto proclamando: Hora do café pessoal, vamos levantar! A friagem e o coral de tosses despertou-o por completo. Sentou-se na lateral da cama e deu de cara com um homem branco, forte como um touro, sem os dois dentes da frente sorrindo efusivamente e tendo nos olhos o registro da pesada medicação. Quer fumar? Perguntou Alexandre. Assim se chamava o interno, mostrando vários cigarros avulsos nas mãos espalmadas. Aqui eu fumo oitenta por dia e nunca me faltam cigarros, completou. Pedro aceitou um, acendeu e olhou em volta. O beliche que ficava no meio do quarto servia como pedestal a um imenso homem negro com o olhar perdido que sentado na cama de cima balbuciava algo sobre cavalos mortos. Ao lado, deitado no chão, “Sol Quente”, magrinho e agitado gargalhava fumando um toco de cigarro. No outro extremo do quarto, no leito de cima de um dos beliches, Valdir, mostrando a dentadura postiça, cantava músicas românticas ininterruptamente. Na cama de baixo, um italiano conhecido como Gringo, tentava explicar acontecimentos de sua vida sem que ninguém lhe desse atenção. Instigado pelas risadas de "Sol Quente" Pedro começou a observá-los com atenção, nesse momento Valdir tomou uma atitude raríssima, parou de cantar. O novato era foco da atenção dos pacientes. Olhavam-no como se esperassem que falasse algo. Sou agnóstico. Declarou inspirado no crucifixo que Valdir ostentava no pescoço. Poderia ter dito qualquer outra coisa para por fim a expectativa. Sol Quente parou de rir. Agnóstico é uma palavra grega: “a” em grego significa “não”, gnosis “saber”. O agnóstico diz; “Não sei se há uma realidade objetiva que é refletida, transformada em imagem por nossa sensação; afirmo que não há meio de se saber tal coisa”. Era Alexandre quem dissecava a despretensiosa declaração. Pedro olhou curiosamente aquele homem, que com seu sorriso desdentado, lhe oferecia um cigarro. Pegou. Valdir começou a cantar, Sol Quente a rir. Pedro levantou-se e espiou o corredor. Para sua surpresa as garotas que saltitavam no sonho, agora todas de jaleco branco e crachá de estagiárias em psicologia, convidavam aos recém acordados para a reunião matinal. Voltou ao quarto, e pedindo atenção de todos perguntou: Porque Sol Quente dorme no chão?
Quem esclareceu de um rompante só foi Alexandre: - É que Adão, o negro do beliche de cima, conta que esquartejaram o cavalo dele por vingança e desde então Amílcar Pelegrino, o “Sol Quente”, tem pesadelos com os pedaços do bicho que diz estarem em cima de sua cama todas as noites, por isso dorme no piso gelado e quando saímos para a recreação Sol Quente fica sempre na nesga do “astro rei” que banha o pátio reservado para os internos do 4º E na esperança de compensar a friagem noturna, repetindo ininterruptamente: Sol quente é bom, sol quente é bom... ! Adão aparentemente desatento em seu olhar sampaku disse: Quero chocolate, você tem chocolate? A pergunta era para Pedro que respondeu com outra pergunta: Quero bebida, você tem bebida? O homem disse não e Pedro completou: Então estamos quites, também não tenho chocolate. Certo, falou Adão, serenamente. Depois da conversa surrealista decidiu seguir a máxima; “Em Roma, como os romanos”. Sabia que poucos ali se encontravam em condições de desenvolver um raciocínio linear necessário para qualquer diálogo. Porém compreendera o drama de Sol Quente e se surpreendera com a desenvoltura verbal de Alexandre que justificava sua loucura pelo excesso de “estudo” e por incrível que pareça, era formado em Filosofia . Tudo que foi dito ou feito de bom pelo homem, foi feito por mim. Declarou Alexandre, dizendo-lhe que parafraseava Espinosa, - inquisidor geral da Espanha, cardeal, bispo e ministro da corte de Filipe II, que viveu de 1502 a 1572 -. Orgulhoso de seu conhecimento completou; Todo o louco que acredita ser Jesus, Napoleão ou qualquer personalidade histórica, inconscientemente é uma parte viva do pensamento de Espinosa. Eu sou a síntese! Constatando o sério problema mental de Alexandre pensou o quão confortável seria se em momentos de crise pudesse transferir a responsabilidade para personalidades grandiosas. Depois da prévia de como ia ser sua estadia naquele local, teve a impressão que um pouco abaixo de sua garganta um tijolo negava-se a descer para o estômago. Esbanjando prepotência, dois enormes atendentes estilo “roupeiro de portas abertas” ordenaram que fossem imediatamente ao refeitório, pois quase terminara o horário do café. Não gostando da maneira truculenta das duas figuras, no trajeto para o refeitório, Pedro pensava se os cinco do quarto não venceriam os dois arrogantes na porrada. Difícil, pois além do “grupo de oito”, (equipe formada por oito internos de outra galeria, utilizado para imobilizar revoltosos), entre enfermeiros, auxiliares e atendentes só no 4º E eram vinte, um mais forte que o outro. Já os internos somavam sessenta, mas a grande maioria incapacitada e os mais salientes devidamente dopados. A fila para o café realmente era uma galeria de horrores, seres humanos inchados, desdentados, deformados, cabelos picotados ou raspados por eles próprios com velhos aparelhos de barba, outros nus e todos num ritmo que se resumia em trocar o peso do corpo de uma perna para a outra num balanço doentio. Movimento causado por medicações da família dos neurolépticos, que se por um lado entorpece o paciente em contrapartida causa imensa agitação interior. Daí o balanço de Sol Quente, Alexandre, Gringo, Valdir e Adão e todos os outros que Pedro ainda não conhecia. O homem começou a imitá-los para que os funcionários não notassem que novamente havia escondido sob a língua e cuspido os remédios no banheiro. Num ambiente como aquele tudo podia acontecer. O cenário lhe trazia à memória filmes sobre manicômios, mas, com a diferença de que ali não havia dublês e nem atores representando. Quando já estava quase entrando no refeitório, um enorme paciente gordo conhecido como Brastemp enfiou-se na sua frente abrindo espaço a cotoveladas e acertando-lhe uma no rosto. O seu metro e oitenta e três de altura, alcançava apenas o ombro de Brastemp, com o nariz sangrando reclamou a um enfermeiro que ostentava uma bandagem na cabeça. Este o aconselhou a aceitar a ”lei do mais forte”, dizendo que afinal de contas, ali, Pedro era o novato. Brastemp que ouvira a queixa o encarava sorrindo debochadamente, era um sósia do Brutus, vilão dos desenhos animados do Popeye, suas sobrancelhas pareciam um grosso risco de caneta hidrocor. Instintivamente e com os nervos a flor da pele, conseqüência imediata da falta de álcool, Pedro deu tal murro na boca de Brastemp que os ossos de sua mão chegaram a ranger. No tombo o gigante derrubou dois outros que estavam na fila. Ao levantar-se veio em direção a Pedro espumando pela boca ensangüentada, com uma tapona deixou estendido um funcionário que tentou segurá-lo. Pedro o esperou simulando com os braços que ia repetir o mesmo golpe, quando a distância se fez exata bateu um “pênalti” com bico do pé direito na genitália do doente mental. Covardia ou sobrevivência? Não teve tempo para chegar a uma conclusão, apenas sentiu o agulhasso da seringa com “anatensol” e logo pessoas lhe carregando ao quarto, amarrando-o na cama, seu corpo todo formigando. Tentou falar, mas seus ouvidos identificaram apenas sons pastosos. Ainda teve tempo de ouvir a frase dita pelo enfermeiro com o curativo na cabeça: Bem vindo ao 4ºE.
Durante a impregnação, Pedro sofreu terríveis pesadelos, num deles; visualizava de dentro de uma cova sem caixão, conhecidos, alguns muito tristes, mas a grande maioria aparentando alívio e até satisfação por sua morte. Sonhos desconexos e “viagens” que misturavam imaginação e realidade faziam parte do repertório que dominava seu cérebro. Com um mal estar ininterrupto fez as necessidades fisiológicas na roupa em função da incapacidade motora. Nem nos piores dias de seu alcoolismo havia sentido tamanho sentimento de impotência física e vazio existencial. "O sonho acabou"! Teve medo de enxergar John Lennon, mas quem dissera a frase fora Dna. Enir, atendente de enfermagem que há dias pacientemente lhe dava banho e comida na boca. Os olhos ardiam-lhe pela forte claridade das lâmpadas. Aos poucos conseguiu ajustar o foco do olhar no rosto da mulher. Era loira artificial, meia idade, gorda de aspecto simpático. A falta de equilíbrio dificultava todos os movimentos, mal conseguia se manter sentado no banco coletivo do irrequieto refeitório tal era a potência da medicação usada para imobilizar os rebeldes. Medicação que começava a desempreguinar-se de Pedro. Perguntando a atendente porque não conseguia segurar a colher, (únicos talheres permitidos no 4º E). Dna. Enir disse-lhe que há dias besuntava-se todo com a comida, tropicava com a bandeja e vivia em estado de semiconsciência, impregnado, no jargão psiquiátrico. Tinha várias perguntas a fazer, mas resolveu citar Augusto dos Anjos: Meu cérebro rola dentro do coco, será que estou ficando louco? Calma que logo ficarás bem. Tranqüilizou-o Dna. Enir . Claudicante, caminhou pela galeria em direção ao quarto, no caminho Alexandre oferecendo-lhe cigarros numa espécie de boas vindas ao ”ressuscitado”, contou orgulhosamente que durante seu período de impregnação Brastemp passara por doze sessões de eletrochoques. Era o ano 2005 e Pedro não entendia como ainda usavam essa “terapia”. Horrorizado pela certeza de estar no pior manicômio de todos que conhecera tentava manter o cigarro na boca mordendo o filtro com os dentes. Sentado na cama que agora tinha lastro, fronhas e lençóis limpos encontrou todos os componentes do quarto. Situação anormal na galeria, pois durante o dia com exceção dos impregnados, amarrados nas camas ou imobilizados como “múmias”, cruel técnica de enfaixar a pessoa com ataduras molhadas, que apertam mais quando secam deixando só o rosto descoberto , todos os pacientes passavam o dia fumando e caminhando de um extremo ao outro da ala de contenção. Sol Quente, sem o tradicional riso nervoso fumava em silêncio. Novamente esperavam que ele dissesse algo. Atacou com a famosa frase de Ernesto Guevara: “Temos que endurecer, mas sem perder a ternura”.Com exceção de Alexandre ninguém conhecia a frase e como falava em endurecer, Sol Quente começou a masturbar-se. Valdir o obrigou a sair do quarto aos empurrões. Sol Quente caiu e bateu a cabeça na quina do beliche de ferro. Gritaria geral. Pedro tentou acalmar os ânimos, mas já era tarde. O grupo “dos oito” fora chamado para eletrochoques em Valdir a mando da Dra.Claudia responsável pela galeria. Formado por oito fortes pacientes usando uma farda diferenciada, o grupo dos oito tomava de assalto qualquer dependência do hospício e imobilizava o rebelde. Alexandre que assistia a tudo ao lado de Pedro, falou; Já que citaste Che Guevara, também vou citar; A farda modela o corpo, mas atrofia a mente. Só que nesse caso, a mente a ser atrofiada será a do Valdir, respondeu Pedro. O filósofo começou a rir nervosamente expondo sua dentadura banguela. Pedro estirou-se na cama, mas não conseguiu dormir apesar do resquício de impregnação. No escuro do quarto, apavorado, acompanhou todos os gritos, sussurros e surtos psicóticos da pior ala da instituição. O enfermeiro o acordou de um cochilo sem sonho informando que a Dra. Claudia lhe aguardava para consulta.
A sala ficava ao lado da enfermaria no início do corredor. Emerson abriu a porta olhando-o enviesado. Muito prazer seu Pedro pode sentar-se, disse a médica. Cabelo escuro deveria ter pouco mais de vinte cinco anos, bonita, cenho franzido. Como está se sentindo? Perguntou - lhe com o olhar forçosamente firme, usava palavreado seco, tentando demonstrar autoridade. Autoridade que realmente tinha dentro do 4º E. Forjada pelo medo. Desde sua adolescência Pedro havia conversado com pelo menos uma dezena de psiquiatras. E todos eles eram mais seguros que a jovem doutora Claudia. Tenho informações que o senhor não vem tomando a medicação. Senhora, disse Pedro, há anos faço análise psiquiátrica e sei que os medicamentos neurolépticos causam terríveis efeitos colaterais e são indicados à pacientes portadores de esquizofrenia, doença que não tenho, sofro de dependência química e alcoolismo cujo tratamento é única e exclusivamente a completa abstinência. O senhor está querendo ensinar como devo diagnosticar e tratar meus pacientes. Disse-lhe, com os olhos saltando das órbitas. Pedro sentindo que ia piorar sua situação tentou contemporizar. Não doutora, apenas transmito o consenso de vários outros médicos, pois é nossa primeira consulta e... Para seu juízo senhor, disse a médica interrompendo-o, já que não se recorda, eu o avaliei no momento de sua internação, onde concluí; estado de demência, agressividade compulsiva, manifestações suicidas e monólogo subjetivo. ”Monólogo subjetivo”, pensou, devia estar falando sozinho e o pior é que não se lembrava do episódio. Era o famoso “apagamento alcoólico”. Ficou em silêncio tentando formular uma réplica, mas Claudia concluiu: Por essas razões vou aumentar sua medicação, a consulta está encerrada, nos vemos amanhã, tenha um bom dia senhor Pedro. Emerson que ouvira a conversa em pé atrás da cadeira abriu a porta para que o interno saísse. O atendente que não costumava falar com pacientes a não ser para dar instruções, mas com um movimento de cabeça indicou que Pedro entrasse na enfermaria para um bate-papo. Ô Pedro, notei que tu de louco não tens nada és um cara inteligente e eu já vi muitos caras inteligentes saírem daqui completamente loucos mesmo, veja o exemplo do Alexandre. Essa “doutorazinha” é metida a besta. Faço um trato contigo, se não causares mais brigas, especialmente com funcionários, (não se recordava da cadeirada no enfermeiro), e ajudares a manter a tranqüilidade aqui na Mario Martins, (assim se chamava oficialmente o 4º E), te darei a medicação via oral e farei “olho branco” para cuspires fora. Pedro concordou de imediato. Saindo para o corredor Alexandre o aguardava para lhe dar um cigarro. Pedro já se considerava um rato de hospício depois de tantas internações. Mas surpreendeu-se ao passar em frente ao banheiro e ver doentes dando banho, enxugando e vestindo outros doentes mais “atrapalhados”. Alexandre que o acompanhava contou que os funcionários, com exceção de Dna.Enir que inclusive era discriminada pelos colegas, tinham nojo de cumprir essas tarefas. O homem notou que as únicas pessoas que não negligenciavam solidariedade no 4º E, eram aquelas que também não a recebiam. Sentados num banco no meio da galeria, Valdir, “robotizado” pelos choques combinados com cavalares doses de remédios, desafinava interpretando músicas românticas sob o olhar perdido de Adão. Perdido, porém esperto, pois já fazia uma troca com um outro paciente de uma surrada calça jeans por duas grandes barras de chocolate trazidas por familiares nos escassos dias de visita. Fumavam assistindo o interminável vai-e-vem de internos quando soou a sirene. Emerson meio corpo para o corredor escorado no balcãozinho da porta, gritou: Terapia ocupacional! Oba! Exclamou Alexandre começando a declamar um poema; A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber. A professora é muito gostosa e é por isso que a homenageio com Rainer Maria Rilke, grande poeta lírico nascido em Praga, antiga Checoslováquia, viveu de 1875 a 1926. A erudição de Alexandre causava curiosidade em Pedro. Não entendia como Alexandre sujeito a tratamento com choques elétricos, onde quebrara os dentes da frente no impacto dos maxilares pela violenta descarga, podia contar com a memória para citar poemas. Foram todos para a grande sala no fim do corredor, tinha uma televisão desligada e presa à parede num dos cantos do recinto, suspensa dentro de uma caixa com tela protetora de arame para que internos não a quebrassem. A mesa coberta por folhas de papel em branco ocupava o centro da sala. Lorena entrou sorrindo e distribuindo lápis de cera de uma pasta que trazia na mão. Lápis que vários doentes começaram a mastigar assim que receberam. Sol Quente chegou atrasado, curativo na cabeça, nu, e com o pênis ereto. Motivo pelo qual foi conduzido pelo grupo dos oito para a sala de “mumificação”. Lorena era formada em Artes e ministrava Arte Terapia na Instituição. Alexandre tinha razão. Lorena não era bonita, era linda com seus olhos azuis, lábios carnudos, corpo escultural e muito inteligente. Sempre que se aproximava de Pedro, o perfume delicado da professora acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Era o sonho erótico dos profissionais da casa e com certeza de todos os internos que ao fim da aula se revezavam nos banheiros para a masturbação. Como não tinha habilidade para desenho ou pintura resolveu escrever na folha que Lorena lhe dera e em todos os horários de arte terapia ele escrevia. E por vezes debatia com a artista os assuntos que abordava em seus textos. Em conseqüência destas conversas desenvolveram uma afinidade especial, afinidade que ficou notória na instituição quando esta se ofereceu para retirar os pontos da sobrancelha já cicatrizada de Pedro num hospital repleto de médicos e enfermeiros, roçando levemente seus seios no rosto do interno.
Aos exatos sessenta e cinco dias de muitas brigas, sessões de eletrochoques, ”mumificações”, amarrações em cama, berros noturnos e uma infinidade de horrores aos quais Pedro passara quase incólume, tinha em mãos o esboço de um conto. Lorena que gostava do que fazia, ao contrário da Dra. Claudia que de mau humor aumentava a medicação de internos baseada em seus equivocados diagnósticos, foi a grande responsável pela escrita de Pedro, inclusive o autorizando a sair da galeria para escrever na paz da biblioteca onde devorou quase todos os livros lá existentes como as obras completas de Freud e Jung e outros autores indicados por Alexandre e por ela. Além é claro, de servir de inspiração para masturbações memoráveis onde às vezes até a “malvada” Dra. Claudia era homenagiada. O atendente Emerson que vivia a contradição de no íntimo condenar os procedimentos medievais da instituição, mas como funcionário ter de executá-los, foi quem preservou sua saúde mental, evitando que ele ingerisse os remédios e levasse eletrochoques, (onde dois bastonetes ligados a uma máquina são pressionados contra as têmporas do paciente imobilizado descarregando choques elétricos na caixa craniana), componentes principais daquela verdadeira fábrica de loucos. Quando a Dra. Claudia saiu em férias, Márcia sua substituta após duas entrevistas assinou a alta de Pedro. Sairia numa quinta-feira. Na última entrevista Pedro aproveitando um vacilo da médica despejou dentro do garrafão de água mineral, água que só funcionários e médicos podiam beber, todos os remédios que ao invés de por no lixo havia moído e armazenado durante sua estadia. Iriam provar do próprio veneno. Na porta de saída da ala vários internos esperavam para despedirem-se de Pedro. Com exceção do remédio Anatensol, punição pela briga com Brastemp, passara toda a temporada naquele inferno sem ingerir nem uma aspirina. Sentia-se ótimo pela primeira vez em anos. Ciente que qualquer internação motivada por álcool ou drogas, salvo casos que já apresentem complicações orgânicas ou psíquicas acentuadas, deve ser tratada sem o uso de remédios. Dirigindo-se a esperada liberdade, no meio do corredor, Adão, nu da cintura para baixo defecava em sua própria mão e arremessava os excrementos em Brastemp que sentado no banco não esboçava qualquer reação pois se encontrava impregnado. Manifestação estranha de solidariedade para com Pedro que via a cena com tristeza pela situação de ambos. Alexandre que tinha provocado grande confusão tentando proteger Dna. Enir de um outro paciente em surto psicótico agredindo-o, estava impregnado e proibido de fumar. Chorando e rindo ao mesmo tempo, abraçou Pedro e com voz pastosa disse: Pedro, tu és feito de pedra e a partir de ti construirei minha igreja, palavras de Jesus ao apóstolo Simão Pedro, balbuciou derramado em lágrimas. Tentando animá-lo o homem citou o pintor Pablo Picasso; Por que Platão declarou que os poetas devem ser expulsos da República? Justamente porque todo poeta, todo artista, é um ser anti-social. Sua frase não surtiu o efeito desejado, pois Alexandre normalmente bem humorado continuou a chorar com mais ênfase, talvez por concordar com Platão. Valdir cantava; “... eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo...” música de Roberto Carlos. Tema que para Pedro não fazia sentido pois não tinha cachorro, muito menos um que sorrisse e nem casa para chegar em frente ao portão. Peculiaridade da doença do alcoolismo que ao inverso de todas as outras que une amigos e parentes em torno do enfermo, essa desagrega a família, dilapida qualquer patrimônio e afasta os companheiros. Emerson assistindo a tudo escorado no balcãozinho lhe fez uma continência ao estilo militar que foi retribuída com um leve aceno de cabeça. Sol quente é bom, sol quente é bom, repetia Sol Quente, batendo a mão em seu ombro. Pedro, era a primeira vez que ouvia Sol Quente pronunciar um nome, vou ficar com a sua cama, lá o bicho não vai. Dizia ele entre repetições de “sol quente é bom”. Ficou aliviado em saber que de agora em diante ele esperaria a morte pelo menos deitado em uma cama e não mais seminu tremendo de frio no chão gelado do quarto. Gringo, ao qual nunca dera atenção, o abraçando fortemente falou-lhe ao pé do ouvido; também li todos os livros da biblioteca, fez uma pausa e mudando de assunto completou: deixe de ser louco e seja apenas o Pedro, essa vida de manicômio não é pra ti, é mil vezes mais fácil enfrentar as dificuldades da vida do que anular-se em um hospício. Procure manter-se sóbrio, pois se voltares talvez não saias mais. De onde menos esperava as palavras saíam sábias. Baseado no lúcido conselho do Gringo concluiu que este também não tomava a medicação. Ia saindo com a certeza que deveria ter conversado mais com o velho. Quando a última tranca da reforçada porta se abriu, Lorena vinha chegando para as consultas, seus olhos se miraram por intermináveis segundos, Pedro quase quis continuar internado, ninguém disse palavra, o homem deu três passos e ouviu o barulho dos cadeados da porta fechando o 4º E as suas costas. O difícil seria definir se o inferno ficava do lado de dentro ou de fora daquela instituição.
Eduardo Simch
Fim

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bochincho


Bochincho 
Autoria: Jayme Caetano Braun
A um bochincho - certa feita,
Fui chegando - de curioso,
Que o vicio - é que nem sarnoso,
nunca pára - nem se ajeita.
Baile de gente direita
Vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quireral.

Atei meu zaino - longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
'Pero - que las, las hay',
Sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.

No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Me entreverei no banzé.
Chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candieiro, bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalé china lindaça,
Morena de toda a crina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
Com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta.
Eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
E o gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu - contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos - flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
- Cumpriu-se o velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei - de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava - com espanto,
Mais sério do que um capincho!

E foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono de rodeio.
Quis me partir pelo meio
Num talonaço de adaga
Que - se me pega - me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa - chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na volta do braço
Consegui tirar o talho
E quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei - sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas ainda hoje me arrepia
Lembrar aquela peleia,
Talvez quem ouça - não creia,
Mas vi brotar no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E aquilo foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E amigos - foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho - quando estoura,
Tinidos de adaga - espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Gritando - de toda guela,
Num berreiro alucinante,
Índio que não se garante,
Vendo sangue - se apavora
E se manda - campo fora,
Levando tudo por diante!

Sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos - se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chínaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro - alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
- Já quase sem munição,
Todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Me dei conta - de repente,
Não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na do fundo,
Saí na Porta da frente...

E dali ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E inda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zaino era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

E a china - essa pergunta me é feita
A cada vez que declamo
É uma coisa que reclamo
Porque não acho direita
Considero uma desfeita
Que compreender não consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

E a china - eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Em bárbaro frenesi.
Talvez ande - por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou - talvez - nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas - que se banha nua
No espelho das aguadas





quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Grande Noite dos Tempos





Obs 1: Esse texto não teve revisão, escrito compulsivamente em 1998,  por princípio 'guimarãesrosísticos' inventa palavras e 'desrespeita' a língua de Camões. Ainda sem final, mas o que causa espécie é um texto de 1998, não acabado por vários motivos, tenha sido visto nos quadrinhos e nas telas em muitas versões "semelhantes" até 2015. 
De lá para cá me sinto 'homenageado' e ao mesmo tempo acredito que artistas dos quadrinhos e principalmente da indústria cinematográfica/estadunidense tenham tido a mesma ideia , "os artistas são antenas do tempo", será? Fizeram tantas HQs e filmes com o mesmo argumento! Porém fica a pergunta; porque não filmaram esses roteiros "criativos e autorais" antes da minha lavra?
Obs 2:  Todas as citações 'ouvidas' por Cão Luzir serão registradas com; autor, livro, capítulo e páginas, no momento de uma possível publicação impressa.


Parte I – O Arquétipo

Os curiosos acontecimentos que são o objeto dessa narrativa ocorrem num futuro não muito distante. Após o fim do mundo vivendo a era da nova barbárie, os sobreviventes da espécie humana divididos entre nômades e sedentários guerreiam entre si. Os sedentários, autodenominados “novos homens” que habitam abrigos nucleares organizaram a sociedade em torno de sua principal preocupação; conseguir carne não radioativa. As populações nômades expostas por quatro décadas à radiação, motivo ainda desconhecido passaram a gerar filhos imunes, coisa que não ocorreu com as demais espécies e nem com os sedentários, "protegidos" em abrigos nucleares. Essas populações consideradas selvagens são caçadas como alimento. O idioma usado é a "mescla", uma mistura de todas as línguas , repleta de expressionismos verbais e neologismos onde as palavras significam tanto pela sonoridade quanto pelo sentido literal. A civilização e seus ideais morreram e o que existe é a composição de um mosaico feito de fragmentos, vestígios e resquícios, construído no andar da carruagem, carruagem alegórica que carrega sobreviventes e transita no caos, o verdadeiro caos. Liberto dos antigos paradigmas, o embrião passeia pelas ruínas da humanidade e vai colhendo entre erros e acertos o material do novo saber. Tudo é visceral, não existe superficialidade, é morrer ou morrer. A radioatividade provocada pelas bombas quase desapareceu, a temperatura do planeta vem normalizando-se nos últimos dez anos, a única carne comestível para os novos homens, não contaminada, é a humana. Selvagens são caçados por mercenários e concentrados em campos de abate como matéria-prima para produção de "carne doce". Até pouco tempo todas as revoltas e insurreições feita pelos selvagens foram derrotadas pelo exército dos sedentários sob o comando do general Chocho. A esperança para os nômades demorou a surgir, mas quando veio, veio com força, falo sobre o momento em que morte e contra-morte se juntam numa só pessoa para assolar o domínio dos novos homens. O ímpeto, o ódio, o aço e a ferina transbordam em Cão Luzir, líder dos selvagens, exímio matador de sedentários, homens, mulheres, velhos, crianças e tudo o que anda, salta, voa, caminha ou rasteja. Guerrilheiro selvagem, tão ou mais cruel que os seus inimigos. O lacaio Cornélio, da tribo dos encantados, caçadores de nômades pagos pelos novos homens, foi o primeiro duma série de líderes a morrer violentamente durante assalto ao paiol de munições praticado por Cão Luzir. Os produtores de carne doce, feita através da moagem de prisioneiros nômades, pagam em ouro às gangues de traidores selvagens, guerreiros encantados e milícias de híbridos homens-macacos para a proteção do roubo acumulado, gado humano e haréns dos sedentários, porém todos tremem ao pensar em Cão Luzir, o transfigurado, que no imaginário dos inimigos é semelhante ao mito de Belzebu, Lúcifer e Mefistófeles. Paramentado de garrucha, adaga, machado, punhal e fuzil vem acompanhado da matilha, que não tem preço, nem tamanho, nem focinheira, nem respeito. É a morte, onde trovejam as canhoneiras e num contínuo só se bebe cuias de sangue, até deus decretar o fim dos esquartejamentos e o início dos saques para em seguida o mundo ser palco da anarquia libertária. Onde tudo parece paz, parece concórdia, parece amizade.

Parte II - Rogando Pragas


Segue pequeno discurso da guerreira Jordânia aos nômades da alcatéia sul: 
“Não existe sensação individual de glória benfazeja em peito descansado, de alma lavada, de chacina consagrada após erva fumada que não suscite e ressuscite a inveja, a vérsia e a controvérsia, o frustro e contrafrustro, o ódio e a raiva dos perdedores, de alguns amigos, dos inimigos, dos morais, dos hipócritas, dos condescendentes com as injustiças cotidianas, dos que mesmo em maioria nos atacam na calada da noite, dos que evitam o embate direto, dos éticos, dos antietílicos e dos outros. Que carregam ódio justamente por serem outros e não aqueles, porque outro é o que não está na luz daquele acontecido, sente-se excluído, não sabe que vive a própria luz e mira à alheia e alinha a mira do desejo. É o desejo contra o desejado. E o desejado é Cão Luzir, que é bicho e bucho, que é mato e enterro e faço e aconteço que é sem inventar, é porque nasceu para ser . Luzir é o terror dos novos homens. Para eles Cão Luzir é o ladrão, o assassino, o drogado, o selvagem, o come-teu-rabo, o demônio, o subversivo, o; “em seguida começa o massacre”! Dizem que Luzir veio buscar as vísceras, veio arrancar o mondongo gordo que se esconde nos traseiros! E eu lhes digo que é verdade. Ele é o terror do que os comedores de "carne doce" teimam em chamar de civilização. Civilização onde nós somos os animais, a raça inferior, os sub humanos e como tal devemos oferecer o nosso corpo e o de nossos filhos para que a raça superior possa sobreviver. Por isso dizem que Cão Luzir é o massacre generalizado, pois bem, nós nos somamos a ele porque o Cão é a verdade ainda antes de se misturar com a fraude, o engodo e a desumanidade. Luzir é o que não escolhe entre ser escravo ou "carne doce", o que não se sujeita a escolher, é o livre. Os novos homens tem voracidade insaciável. E a voracidade não é mais pelas riquezas, é literalmente pela nossa carne, mas chegou à hora de Cão Luzir nos guiar contra o mútuo, que é o inimigo disperso entre os vários e as pragas que valha carqueja ou valha couraça, corneto, cabaço, buceta e todos os santos. O maior apoio do Cão são as vozes, vozes que o alertam desde filhote. As vozes do inconsciente coletivo ancestral, as vozes que o ensinaram que não somos inferiores a ninguém. Sob a acusação de assassino ele trás a consciência do sarcasmo religioso de que só fez os buracos, quem matou foi deus, mas deus não matou Chocho, o líder dos exércitos novos homens, homem damo, selvagem traidor, sobrevivente de vinte seis tiros e de degola de orelha a orelha pela lâmina do Cão. Chocho o ressuscito, o milagre, o morto vivo da pamonha pica que sobrou para justiçar Cão Luzir e sua matilha. Chocho, o pequeno selvagem “chocho” que desde cedo não se conformava com a condição de nômade, ambicionava o poder, admirava a prepotência dos sedentários, sonhava possuir escravos, queria ser “raça superior”, renegava as tradições selvagens, desprezava seus pares e por eles era desprezado e que na adolescência fez um acordo secreto com os novos homens, o que resultou no massacre de toda sua tribo, parentes de vocês, incluindo sua própria família, moída para produção de "carne doce". Hoje ninguém nos territórios novos homens brilha mais que Chocho. Pois chegou a hora da completa união dos povos nômades para que deixemos de ser caçados, assassinados e devorados pelos canibais sedentários! “Viva o Cão Luzir”! A multidão foi ao delírio e em meio a multidão, disfarçado, um sorriso dentado a ouro luziu na boca do Cão, que admirava o linguajar selvagem de Jordânia.

Parte III - O preparo

O Cão é impulso, é contínuo. Ele olha a matilha de homens, mulheres, de porcos e cachorros, macacos e assassinos, fumantes e bumba meus bois. Ele olha Clarão, que é sargento, ordenança, general e gerente. Cara de homem damo, sem nenhum arranhão nas carnes, liso, quase mulher, mancebo e parado, veterano de todas as guerras, bandido de pura atitude, sangrador calculista, capaz de passar em segundos da inércia e da malemolência a brutalidade e a chacina. Holocausto Clarão, o donzelo pregador de cabeças. Ele olha Jordânia, mulher de fogo nas ventas, formosa, bonita, generala, colecionadora de pau e saco, a navalha de deus, eunucadora de inimigos, professorinha. Toda matilha tem estilo, é mortal e poética, lixo e obra de arte. A matilha forma um quilômetro para qualquer lado do olhar. O silêncio é completo, o cheiro é de gente, de coisa, de bicho e de merda. O cheiro é da puta, da puta que pariu o mundo, porque deus é fêmea e pariu Chocho e Cão Luzir para disputar a herança maldita. Damo é Chocho, com seus dois tenentes papacús, Luzir é feio, é o cão. Chocho é horrível, da maior belezura que a horripilância pode ter. Pedaço mal cicatrizado das carnes da boca com sobras do corte de orelha a orelha. A cuia do coco afundada por dois balaços de metralhadora, a ponta da bala aparece em cima do ouvido. O aleijão baitolo, a esperança branca, o milagre. O colar das sete picas pendurado no pescoço, as sete picas dos seus sete milícias chacinados por Cão Luzir. Chocho é o ódio, o amor, a fofura, o rodo anel e a esperança do mundo de antes, de tudo para muito poucos e nada para muito muitos. Canibal comedor de "carne doce". O além abençoa a cruzada de Chocho, pois o Além sempre é vitorioso independente do vencedor, por isso ele abençoa Chocho e Cão Luzir, porque na verdade não está nem com esse nem com aquele, o além está sempre mais além. E sob os gritos de viva Chocho, as hordas se movimentam.

Parte IV - O desassossego do amor



O Cão esperava notícias dos batedores que foram espionar o inimigo para dar início à marcha quando Jordânia entrou na gruta. O Cão não entendia a existência de tanta guerra naquela beleza de mulher, mulher macho, mas era fêmea. Nos últimos anos ele fora agraciado pelo amor de Jordânia, amor que desarmava sua ferocidade. Sentimento que o fazia a desejar, ela e sua ordenha mitológica, segredo de amor aprendido não se sabe em qual inconsciente coletivo das fêmeas mulheres. “A matilha está inquieta e sedenta de sangue”! Falou Jordânia ao entrar na caverna que servia de abrigo ao Cão. “Será que só a matilha está sedenta”? Ironizou Cão Luzir. “O que o comandante quer dizer com isso? Que da matilha eu sou a mais sedenta pelo destripo e chacina do inimigo? Que eu valorizo muito mais um ano de guerra do que dez de paz e calmaria”? Inquiriu a mulher. “Justamente, a sua pergunta já é a minha resposta, você transpira ódio por todos os poros do corpo, transpira ódio até quando faz amor”. Fez-se silêncio na caverna e os olhos de Jordânia fixaram-se nos de Luzir, atitude arriscada, pois o ato de encará-lo desafiadoramente era quase sentença de morte. Mas Jordânia estava tranqüila, pois além de não o temer sabia que armazenava sua ira para a guerra. “Ninguém é mais matador do que Luzir Luzir é o Cão é o diabo, Luzir é deus e é o nosso guia”! Exclamou a generala. “Tens razão mulher, apesar de me bajulares falas uma verdade, mas diga-me o verdadeiro motivo de te apresentares sem que eu a tivesse chamado”? “O assunto não é fácil, como sabes eu sou uma mulher do destripo, da degola, da chacina e da morte e o senhor é o cão, o assombro das assombrações, ambos vivemos da morte e para a morte”... “Mas que novidade tem isso”? Interrompeu o Cão, começando a rosnar. “É que em meio a tanta matança, a vida se interpôs, estou grávida”! Disse a mulher, mulher macha.

Parte V – O filhote




A expressão do rosto continuava sombria, pois refletia a batalha que se travava no pensamento do Cão, animal chulo, xucro, duro e endurecido pela guerra e desgraça, desgraça iniciada quando seus pais foram barrados nos portões dos abrigos de quarentena pelas milícias a serviços dos novos homens e consequentemente morreram vítimas das inúmeras pestes que se seguiram ao período de radiação restando apenas crianças que nasceram imunes à radioatividade, dentre elas o bebê Cão Luzir. Quando seus pais morreram e foram atirados em um fosso, sua mãe estava a ponto de parir. Fosso em que cães selvagens vinham se alimentar, Luzir sobreviveu graças a uma cadela que devorava cadáveres e o arrancou com os dentes de dentro da barriga da mãe morta, o arrastou para longe dos cadáveres e o amamentou junto com os filhotes.
O instinto e o pensamento a serviço do instinto. O animal homem chamado Luzir era escravo do instinto de vingança. A hipótese de ser pai, de criar, de construir, atormenta o matador sanguinário e afiliado de deus e do demo.
Paramentado dos pés a cabeça o Cão seguia entre Jordânia e Clarão, atrás a matilha de dez mil rumo ao combate. Mas percorrido apenas alguns quilômetros, o turbilhão interior ocasionado pelas guampas de álcool de raízes e muitos charutos de erva de cânhamo selvagem fizeram com que o alucinado Luzir não resistisse mais uma vez à pele rosada e a expressão radiante da grávida Jordânia que cavalgava a seu lado e numa clareira aberta entre seus dez mil assassinos de todos os matizes, copulou de forma selvagem, culminando em orgasmo conjunto anunciado aos uivos sob a assistência respeitosa da matilha.

Parte VI – Chocho



O general Chocho encharcado de suor, tremendo dos pés a cabeça como uma chiuaua elefante, gesticula para os subordinados. Quem visse aquela figura ridícula, horrenda e afetada concluiria que o exército dos novos homens já nascia derrotado. 
Ledo engano, o Rodo anel, assim conhecido entre seus tenentes, era inteligentíssimo e extremamente perigoso. Técnico, perfecsionista e estatístico o homem damo possuía um exército bem treinado e bem armado, que conseguira algumas vezes causar significativas baixas entre os nômades de Cão Luzir. Chocho demonstrara coragem e crueldade nos campos de batalha, além de ter tornado-se uma lenda viva após sobreviver a um confronto direto com o Cão. “Ofídio. Ofídio”. Gritava Chocho para o gigante de ébano que era um de seus tenentes. “Ponha já o espião do demônio no tonel de óleo fervendo, faça na frente de todos para que a notícia e o exemplo se espalhem rápido”.

Parte VII – Azar



Azar é o nome do cabra da matilha de Luzir que fora capturado espionando o acampamento de Chocho depois de sangrenta escaramuça onde os doze que o acompanhavam foram mortos no combate, ele, o décimo terceiro sobrevivera, o treze, número que feiticeiros relacionavam a má sorte, ou seja, ao azar. Azar, amarrado em cima de uma rocha ao lado do imenso caldeirão de óleo fervente tinha na boca uma granada enfiada por um tenente de Chocho. Antes de suspendê-lo sobre o óleo, na presença de grande número de milícias e gladiadores, Ofídio, o tenente, tirou a granada da boca de Azar. Como esse ia ser cozido não era necessário desperdiçar munição, porém o diabo quando não vem manda sempre um secretário e Azar era mais que secretário de Cão Luzir, tinha luz própria e quando o gigante de ébano puxou a granada de sua boca, esse num surpreendente reflexo para quem tinha sido torturado quase até a morte, reteve o pino de segurança com os dentes e rolou de cima da rocha para o lado oposto do tonel com óleo. Os pedaços do tenente Ofídio espalharam-se por uns vinte metros, os estilhaços da granada destruíram a lateral do imenso caldeirão que despejou óleo fervendo em cima de grande parte da tropa de Chocho, matando e mutilando muitos. Azar entalado entre duas rochas sentia o calor do óleo que escorria no chão, mas sem queimar-se. Nesse exato momento o alucinado Luzir e sua matilha adentraram o acampamento de Chocho.·.

Parte VIII - A escolha




A estratégia foi mandar Azar e seu grupo serem capturados pelos vigias, fazendo Chocho pensar que antes da volta dos espiões Luzir não atacaria e então atacar o acampamento como fazia agora. A destreza com o sabre, grávida de cinco meses, era surpreendente em Jordânia, talvez o machado de Clarão rivalizasse em plasticidade, crueldade e sanguinolência, mas ambos não chegavam aos pés da brutal ferocidade com que Cão Luzir dizimava seus inimigos. As poucas armas de fogo que haviam restado no planeta obrigava que os dois exércitos fossem exímios nas armas brancas como facas, sabres, espadas e machados. O Cão também usava lâminas acopladas nos dois antebraços, fazendo com que seus movimentos em entreveros corpo a corpo fossem mais letais. A morte ceifava parelho nos dois grupos quando Luzir conseguiu avistar Chocho, a cavalo, de espada em punho, matando e retalhando. Num salto demoníaco o Cão subiu na garupa do cavalo do inimigo e da garupa montou nos ombros gordos de Chocho. A cena dantesca paralisou o combate que ficou a assistir Chocho segurando as rédeas do cavalo para não cair e Luzir, montado em seus ombros, esporeando sua imensa barriga. O Cão, rindo e gritando dava-lhe coronhadas com o cabo da sua garrucha. O Rodo anel tentava defender-se com uma mão e segurar a cela com a outra, mas Luzir ensandecido batia sem parar. A cara de Chocho era uma posta de sangue e no momento em que Cão Luzir empunhou o sabre para decepar-lhe a cabeça surgiu um tenente inimigo com Jordânia presa em um garrote de aço. A guerreira meneava a cabeça e esperneava, como a dizer ao Cão que continuasse com a degola. O primeiro pensamento de Luzir foi degolar Chocho, não o permitindo escapar pela segunda vez e livrar-se da paternidade deixando Jordânia morrer com o filho no bucho. Numa época em que seres humanos eram moídos para alimentar uma casta, essa atitude seria apenas uma gota no oceano de crueldades, mas até a falta de razão tem irracionalidades que a própria irracionalidade desconhece e os sobreviventes do exército de Chocho fugiram com seu líder semimorto, sob um infernal calor, em troca da guerreira Jordânia.

Parte IX - O Anjo Torto

Era ainda madrugada quando Luzir, Azar e Holocausto Clarão deixaram o acampamento levando Jordânia gravemente ferida rumo à montanha do saber. Quatro rápidos cavalos com seus cavaleiros varavam a imensidão das estepes orientais. O pano que servia de curativo estava tinto de sangue, o garrote metálico aplicado pelo soldado de Chocho rasgara a pele da mulher a ponto de revelar veias e nervos do pescoço. O Cão voava em seu cavalo e impunha aos outros o mesmo ritmo. A voz martelava em seu cérebro; “não é comum ver um homem, com o balaço que o matou já no seu ventre, povoar uma tela de corvos negros sobre uma espécie de campo talvez lívido, em todo caso vazio, no qual a cor de borra de vinho da terra se confronta violentamente com o amarelo sujo do trigo”, Luzir habituara-se às vozes, difícil era entender seus significados. Depois de cavalgados vinte quilômetros sem interrupção, Jordânia numa palidez cadavérica desabou da montaria. “Atravessem-na no lombo do bicho”, ordenou Luzir, “e continuemos, temos de chegar à montanha do saber antes do pôr-do-sol, além disso, estamos em território do Anjo Torto”. “Ninguém ousaria se interpor no caminho do famigerado Cão Luzir”, observou Clarão. “Sim”, concordou o Cão e completando disse: “Está para nascer quem se interponha em meu caminho e não morra dolorosamente, porém, em terras do Anjo Torto tudo quanto se vê, pensa ou imagina nos parece real, então fiquemos atentos e apressemo-nos”. Com olhos arregalados, Azar cavalgava atrás dos dois puxando o cavalo da mulher macho. Repentinamente os quatro integrantes da empreitada sentiram na boca um gosto adocicado acompanhado de confusão mental. Quarenta guerreiros montados em quarenta búfalos surgiram à frente do grupo. Alguns vestiam armaduras, outros tinham o corpo nu pintado ou tatuado. Todos muito coloridos. Anjo Torto se destacou do grupo e inquiriu: “O que faz o Cão, sem exército, no território encantado”? Luzir como que embriagado proferiu o que a voz o soprara ao ouvido; “Eu, Cão Luzir, filho legítimo da história, êmulo do tempo, depósito dos feitos, testemunha do passado, exemplo e conselho do presente, ensino e esperança do futuro, não devo satisfação nem aos deuses, quanto mais a um verme da tua espécie que encanta povos nômades para servir de alimento aos novos homens”. Torto não entendia muito bem o idioma da mescla, pois nos territórios falava-se encantado, que era semelhante, porém diferente, mas deduziu a ofensa proferida. “Que todos os demônios dos territórios encantados devorem as minhas entranhas se eu não estraçalhar a tua triste figura”, gritou Torto de espada em riste empinando o búfalo que montava. Clarão espumando pela boca, gargalhava em uma estranha alegria, Jordânia, outrora moribunda, aprumara-se na montaria acariciando o bico dos seios como a masturbar-se, Azar fazia pacientemente tranças nas crinas do cavalo. Relâmpagos coloridos riscavam os céus das estepes. Distavam uns vinte metros um do outro, Luzir a cavalo com um sabre em cada mão, Anjo Torto de espada reluzente montado em um búfalo. O primeiro que descarregou o golpe foi o colérico e colorido Anjo e com tal força e fúria o descarregou que mesmo encontrando defesa no sabre, bastara àquela cutilada para dar fim ao glorioso embate, e com ele a história de Cão Luzir e a esperança dos nômades. Mas a sorte que para outras coisas o guardava, torceu a espada do inimigo de modo que outra coisa não fez do que derruba-lo do cavalo, levando pelo caminho parte de sua orelha. É difícil descrever a raiva que se apossou do Cão vendo-se naquela situação, basta dizer que inebriado voou de volta ao cavalo e apertando um dos sabres nas mãos, com tamanho ímpeto, descarregou sobre o encantado acertando-o de prancha, em cheio na tampa da cabeça. 

Parte X – Morte e Contra-morte

A fossa do Torto era uma cratera nos territórios encantados com quarenta metros de profundidade onde eram atirados os mortos contaminados por radiação, impróprios para a produção de carne doce. Cão Luzir, Azar, Holocausto Clarão e Jordânia foram atirados ali. Anjo Torto assim como Luzir nunca havia perdido um duelo, uma justa, pois tinha o poder do encantamento, mas depois de perder para o Cão, seu código de honra não permitia que ele o matasse ou deixasse que seus guerreiros o fizessem, não com as próprias mãos, então os surraram e os atiraram na fossa. O cheiro nauseabundo incomodava até tipos brutos como Cão Luzir e seus companheiros. Jordânia ardia em febre, Azar gemia com a espinha quebrada, paraplégico, a décima terceira vértebra, o número treze. Holocausto Clarão, encostado à parede da fossa, tentava em vão conter o sangue que esguichava do cotoco restante do braço que havia sido decepado por um guerreiro encantado. O Cão, sentado no meio da cratera, observava os cadáveres que se amontoavam embaixo de si e ouvia a voz; “E do que se queixa a terra sob as asas dos faustosos corvos, sem dúvida faustosos só para Van Gogh, suntuosos augúrios de um mal que já não o afetará? Pois ninguém, até então, havia conseguido converter a terra nesse trapo sujo empapado de vinho e sangue”. Notou que um dos mortos vestia uma túnica igual a dos sábios monges da montanha. Imediatamente tirou o canino direito e de seu interior uma bola de delírio, poderosa mistura de folha selvagem com água radioativa, peixe seco, papoula, sangue de feto, espuma de sapo boi e olho de cobra coral, rezada em Anzabiage, oração mágica proferida por feiticeiros e imediatamente a colocou entre os dentes do cadáver. Um olho se abriu. 
O monge, que agora abria os olhos era um sábio iniciado nas ciências ocultas do mosteiro da montanha. Ele fazia seu retiro espiritual nos territórios encantados, orando e jejuando, mas a ainda pesada radiação dos territórios decompunha e espalhava no ar as propriedades da vegetação rasteira. Papoulas, cânhamos, peiotes e uma infinidade de cactos, ervas e raízes que ali germinavam, brotavam e floresciam dispersavam no ar todos os componentes "mágicos". Por essa razão aqueles que penetravam nesse território tinham visões, alucinações ou simplesmente enlouqueciam. Anjo Torto e seus nômades mercenários haviam nascido na região e em conseqüência disso desenvolveram enorme tolerância física as propriedades, porém, fora dos territórios sofriam de síndrome de abstinência aguda. Por essas peculiaridades "mágicas" que o monge fazia sua peregrinação espiritual nesse território, onde foi capturado pelo bando de Torto, mas como a carne dos monges, assim como a de Torto é imprópria para produção de carne doce por conter muita "magia", fora assassinado e jogado na fossa.

Parte XI - Delírio




A reação desses guerreiros não difere da de qualquer humano, em qualquer época, que presenciasse o acontecido. Todos ficaram atônitos, assustados, até mesmo Cão Luzir que já vivera e vira muita coisa, estava espantado. É inacreditável ver um cadáver simplesmente abrir os olhos e voltar a viver. E foi justamente assim que ocorreu. O próprio Luzir, ferido em batalha, já havia tomado uma bola de delírio e o máximo que conseguira fora ficar duas noites sem dormir, com alucinações, sentindo dores horríveis nos ferimentos que vieram a curar-se naturalmente com o passar do tempo.
O monge ficou em pé, aspecto saudável, olhos brilhantes, sorriso nos lábios. Caminhou em direção a Jordânia, pos a mão em sua testa, que queimava de febre, em seguida foi até Holocausto Clarão, pos ambas as mãos sobre seu braço decepado, depois se dirigiu a Azar, que caíra de bruços e ficara paraplégico, agachou-se ao lado deste, pos a mão na base da coluna e foi contando as vértebras até o pescoço, por fim, voltou-se e sentou ao lado do Cão, curando, como se colasse, a orelha que este trazia pendurada por um fiapo de cartilagem.
Mais forte que o cheiro dos cadáveres que pairava no ar era a certeza daquelas quatro pessoas que algo muito importante, talvez a coisa mais importante de todas, havia acontecido. Mesmo um selvagem, um bandoleiro, um assassino, assim como também os sábios, os monges, os guerreiros encantados, os soldados de Chocho, todos, sem exceção, sabem que existe um limite, um clímax, um final, uma palavra que durante milênios permaneceu soberana, inapelável, inabalável, terminantemente definitiva: morte, e agora, diante dos seus olhos, esses quatro indivíduos; Cão Luzir, Jordânia, Holocausto Clarão e Azar presenciavam atônitos o rompimento desse limite, o impossível, o absurdo, a subversão básica da ordem vigente no universo. E o monge ressuscitado, que minutos atrás, esverdeado, com olhos secos e em processo de putrefação, sorria, corado, cheio de vida e juventude. A estupefação era tamanha que os quatro nem notaram que haviam sido curados de seus traumas e aleijões. “A voz falou na mente de Luzir,” Van Gogh soltou seus corvos, como se fossem os micróbios negros do seu braço de suicida, a poucos centímetros do alto e como se viessem por baixo da tela, seguindo o negro talho da linha onde o bater da sua soberba plumagem acrescenta ao turbilhão da tormenta terrestre as ameaças de uma sufocação vinda do alto”. Por fim, disse o Cão sem meias palavras olhando o monge diretamente nos olhos: “Como é a morte”? Muito tranqüilo o monge respondeu; “Assim que sairmos dessa cratera prometo que será a primeira resposta que darei”.


Parte XII – O Relato




Com as energias renovadas não foi difícil para Azar e Clarão escalarem a parede da cratera estendendo a corda feita de trapos das roupas dos mortos a Jordânia, Luzir e o Monge. Torto e seus guerreiros já haviam partido a patrulhar seu imenso território em busca de novos invasores.
As cinco pessoas caminharam trezentos metros em silêncio até uma formação rochosa onde sentaram. Dessa vez não foi Luzir quem falou e sim Jordânia; “e então monge, como é a morte”? O monge começou a falar: “eu fui capturado pelos guerreiros de Torto quando meditava na planície ao norte, depois constataram que eu era monge e minha carne não servia para o comércio então me levaram até a beira da cratera espetaram-me uma lança no peito e em seguida atiraram-me no buraco. Não morri na hora, a pilha de cadáveres amorteceu a queda. Com perfuração no peito comecei a engasgar devido à hemorragia, tentei mover-me, mas a dor foi muito intensa, o suor encharcou meu corpo, sentia muito frio, o medo virou pânico, puro pavor, previa o terrível momento final. Então a dor foi diminuindo, um mau sinal, tentei virar-me, não tive forças, o terror aumentou, notei que toda a vida que restava em mim, acumulava-se no abdômen entre o umbigo e o sexo, resistindo, me engasguei, dei uma golfada de sangue, o calor do sangue esquentou meu corpo gelado, me aconcheguei na possa espessa, queria aquecer-me, não sentia braços nem pernas, o terror foi sumindo, só o estômago ainda pulsava, não pensava em nada, tudo em mim era armazenado no estômago como um ponto de resistência, a grande batalha de todo homem começara, sabia ser uma luta inglória, queria adiá-la, adiá-la, senti uma pontada na barriga, um apagar dos sentidos, voltei, o alívio foi imenso, tive um orgasmo, uma sensação inédita, grandiosa de prazer, tive esperanças, felicidade pura, como nunca em minha vida em seguida tudo escureceu".
“Monge”, disse Clarão, “já vi muita gente morrer, eu mesmo já matei muitos e nunca imaginei que a morte fosse algo tão bonito”. “Bonito? Só se for à forma de narrar, porque no momento é uma cruel batalha entre vida e morte. É uma briga entre irmãs, filhas da natureza, aonde a vida vai a todos os extremos, usa todos os recursos, mas ela própria, vida, através da razão do homem, sabe que não pode vencer, pois a própria força para lutar reside no autoengano, é terrível”! Luzir interrompeu; ”Pois que não é pelo indivíduo, mas unicamente pela espécie que a natureza se interessa e é por ela unicamente que luta seriamente pela conservação, circundando-a de grande luxo de precauções e por meio da superabundância ilimitada dos germes e do poder imenso do instinto de reprodução. O indivíduo, ao contrário, não tem valor algum para a natureza e nem pode tê-lo, desde que é apenas um ponto num tempo infinito e num espaço infinito que compreende um número infinito de indivíduos possíveis. A natureza está sempre pronta a abandonar o indivíduo que não somente está exposto a perecer de mil modos e pelas causas mais insignificantes, como também é, desde o princípio, destinado a uma perda certa, para a qual é arremessado por ela mesma, apenas haja satisfeito a missão que tem de conservar a espécie.”! Esclareceu o Cão surpreendendo a todos e por fim disse; “mas o mais importante é o que vem depois, que é o que ninguém sabe nem imagina e o monge vai nos descrever”. “E deus? “Encontrou algum deus, algum santo”? Quis saber Azar. O monge que era um homem culto surpreendia-se em ver selvagens guerreiros interessados em questões existenciais e principalmente pela desenvoltura intelectual de Luzir.
 “Quando tudo escureceu não senti mais dor, não senti mais frio nem calor, não senti mais nada. Na verdade até o que entendemos por sentir desapareceu. Não tinha corpo nem a sensação de articulação com tronco e membros, era apenas consciência e calma, mas era algo que também estava esvaecendo-se, eu podia ver vocês e os cadáveres, inclusive o meu, mas não estava flutuando ou nas alturas, eu estava em tudo, espalhado. Não sentia vontade de ajudar ninguém, nem mesmo a mim, porque na verdade não via necessidade de ajudar, tudo acontecia conforme o ciclo natural, só observava e ia me dissipando, fragmentando, era como se os meus interesses fossem mudando, sensação de não pertencer mais aquilo. Não que o objetivo agora fosse grandioso e o humano insignificante, nada disso, simplesmente outro. É um processo de dissipação, de reintegração, é uma dispersão da consciência em bilhões de partículas. “É algo físico, puramente material”. “Sim, mas e deus”? Agora era Jordânia quem falava. “Calma”, respondeu o monge; “ainda não terminei. O que acontece antes da dissolução total da personalidade são as revelações, várias dúvidas históricas da humanidade são respondidas, o problema é que ninguém havia voltado com as respostas. É um glorioso momento de iluminação antes da fragmentação, todas as respostas flanavam no espaço e fui colhendo e compondo. Deus? Não é nada como se imagina, não existem seres, hierarquia, essas bobagens, tudo é uma coisa só, tudo se mistura, não existe consciência individual, na verdade tudo se desintegra em partículas e essas partículas vão se recombinar. Eu poderia dizer que deus somos todos nós ou que é a força que rege o universo, mas não direi, porque não é verdade. Deus não existe. Tudo que ensinam há séculos as populações é um engodo, é uma forma sutil e cruel de dominação, é uma maneira de manter o poder e o privilégio sem ser importunado pelos miseráveis, contentes com a promessa de uma vida feliz no outro mundo, oportunamente condicionada à postura do candidato neste mundo. A verdade é que depois de morrer apodrecemos iguais a qualquer outro animal, por isso devemos viver melhor e o mais intensamente possível aqui, nesse mundo. A morte é lugar onde todos, sem exceção, cumprem igual função, apodrecer e fundir-se. Morreu desaparece como consciência, como existência e se integra totalmente no universo e isso é tudo”.
Fez-se silêncio após o relato. Azar parecia desiludido. “Mas se não existe deus como fizestes os milagres para curar-nos”? “Não foram milagres, o que fiz foi à aplicação da mais evoluída medicina, como disse, tive muitas respostas, inclusive recombinação para regeneração de tecidos. Um bom tempo depois de sofrer ferimentos, qualquer ferimento, o corpo humano está produzindo energia suficiente para curar-se, o problema é que essa energia sempre se dissipa desordenadamente sem que nenhum ser humano saiba como redireciona-la corretamente. Agora existe alguém que sabe, eu”. “E como fica sua vocação religiosa depois destas constatações”? Quis saber o Cão. “No que diz respeito à interiorização, reflexão ou religião como religação entre o aqui e o depois, sai fortalecida, mas no tangente a crendices e doutrinas, abandono-as agora, entrando para a sua guerrilha”, declarou o ex-monge tirando o hábito sob o terrível calor da estepe.


Parte XIII – O parto

Com a regeneração exercida pelo monge todos se sentiam ótimos, no ápice do equilíbrio físico e mental. Mas isso não supria a falta de água, comida e montaria para a longa viagem de volta. Foi ao encontrarem um poço abandonado pelo excesso de radiação na água, que Jordânia sentiu as dores do parto. O calor não dava trégua, entre um rochedo e a fenda de água radioativa Jordânia acocorou-se para parir. Nesse exato momento, o tropel de búfalos anunciava a chegada de estranhos. Eram guerreiros de Torto vindo matar a sede no poço, pois eram imunes à radiação. O Cão evaporara-se, Clarão preparava a funda que fizera com restos das roupas dos cadáveres. Era um grupo de sete, desceram dos búfalos e como crianças correram em direção ao poço. De cima da rocha Clarão disparou sua atiradeira com precisão, matando o primeiro, os outros tentaram em vão voltar às montarias e as armas, mas essas já vinham em sua direção sendo que os dois primeiros búfalos eram montados por Cão Luzir e Azar. Com uma cimitarra na mão, arma usada pelos “encantados” de Torto, em dois rápidos movimentos, Luzir decepou duas cabeças e Azar trespassou um terceiro com uma lança metálica, também da indumentária encantada. Os três restantes correram para refugiarem-se na rocha, mas o último foi esmagado pelo peso de Clarão, que pulou de seis metros do topo do rochedo em sua nuca. Os dois que chegaram ao abrigo encontraram o monge, esse, com um golpe de perna tentou atingir a cabeça do primeiro guerreiro, mas esse mal se moveu e o segundo desmaiou o monge com violenta pedrada na cabeça. Os dois guerreiros de Torto conheciam a fama de Cão Luzir e não tinham dúvidas que iriam morrer violentamente. Mas passados alguns minutos desconfiaram da demora por parte do Cão e seus companheiros em atacá-los e mata-los. Foi nesse instante que um ruído vindo do poço chamou-lhes a atenção. Jordânia suspensa por uma corda feita de trapos enlaçada pelas axilas pendia na metade do poço a três metros da água. Sua expressão era diabólica em meio às dores do parto, ou melhor, ao parto em si, olhava para cima com sorriso transtornado, encarando os espantados guerreiros enquanto segurava a criança que já tinha meio corpo para fora da vagina. 
Morgue, o mais velho dos dois guerreiros de Torto viu ali a chance, pequena, mas chance de sobreviver. Junto com Jhetro, assim se chamava o outro, começou a suspender Jordânia, mas o movimento aumentou a dor e a mulher deu tamanho grito que até o mormaço da estepe pareceu dissipar-se. Em seguida ouviu-se a voz do Cão, ”não toquem na mulher que poupo suas vidas”, os dois soltaram a corda, mais um berro ecoou. Os dois se entreolharam, e Jhetro perguntou; “como saberemos se o Cão fala a verdade”? “Não saberão”, respondeu Luzir. Com os movimentos do parto e a tentativa de tentar suspende-la a corda ruiu. Jordânia despencou para o fundo do poço. A queda na água foi o impulso que faltava para a criança nascer, nasceu em baixo da água e saiu nadando presa pelo cordão umbilical e puxando a própria mãe para a superfície, que por um momento permaneceu desacordada, mas o agudo berro da criança despertou Jordânia que roeu o cordão umbilical. Nesse momento o monge abriu os olhos e viu Morgue, de costas olhando para dentro poço, aplicou-lhe violento pontapé na bunda que este atravessou parte da fenda indo chocar-se de cabeça na rochosa parede interna. Caiu morto ao lado de Jordânia e o bebê. Jhetro atirou-se em cima do monge, mas antes de qualquer atitude, sentiu no pescoço o frio da lâmina de Azar, que sorrateiramente entrara no rochedo, “a festa acabou” disse suavemente ao ouvido do sétimo guerreiro encantado.


Parte XIV - À volta



Depois de beberem água e comerem o alimento que os encantados traziam nas bolsas de montaria, aprontaram os búfalos e seguiram a viagem. Jhetro, o encantado que vinha amordaçado e amarrado a um sexto búfalo era mal visto pelos guerreiros. “Bem que eu poderia propiciar a beleza da morte a esse encantado”, disse Clarão. “Ainda não, vou precisar que ele me de algumas informações”, respondeu o Cão. O monge vinha por último, desajeitado no lombo da bovina montaria. Azar, trinta metros à frente, seguia como batedor, Jordânia em um búfalo ao lado de Luzir amamentava o filho. Um pouco atrás, Holocausto Clarão puxava o prisioneiro. Os búfalos seguiam num trote acelerado, ninguém precisava lembrar que ainda estavam em território de Anjo Torto. O monge com dificuldade conseguiu emparelhar montaria com Luzir e disse, ”você não pretende matar o prisioneiro a sangue frio”? Os olhos do Cão faiscaram, ele travou a montaria, todos pararam. Azar viu a movimentação e começou a voltar, no que foi interrompido por um movimento de braço do Cão que disse; ”fique e vigie de olhos bem abertos”. Mandou Clarão trazer o prisioneiro mais perto e mirando o monge falou; “esse homem que você quer poupar a vida é um guerreiro dos territórios encantados, um soldado de Anjo Torto e sabe o que isso significa? Que ele não é um novo homem, ele é um selvagem como eu e meus amigos. Como essa criança que Jordânia carrega nos braços. No entanto ele e toda a sua tribo renegam essa origem, coisa que não me importo, o problema é a aliança que fizeram com os novos homens, e essa aliança consiste em caçar e fornecer matéria prima para fabricação de carne doce. E sabe qual é a matéria prima? Eu, Jordânia, o bebê que ela carrega e todos os selvagens da estepe”. Fez uma pausa e olhou para o encantado que tremia dos pés a cabeça, era possível ouvir o bater de seus dentes. Clarão já preparara um prego de dois palmos que usava para pregar inimigos nos troncos das árvores. Pregar pela cabeça. Luzir prosseguiu, ”e sabe o que esses idiotas ganham em contra partida? A promessa de não serem atacados pelas tropas de Chocho, só que Chocho não os ataca porque a carne deles é contaminada por radiação e não servem para carne doce, os novos homens têm tanto desprezo por eles como o que tem por nós. Para eles não passamos de animais. Mesmo alguns punhados de pedras brilhantes que ganham por seu trabalho sujo é um engodo, pois se pudessem sair dos territórios encantados veriam que após a grande radiação quase todas as minas de carvão transformaram-se em jazidas de diamantes a céu aberto e com a abundância o diamante não vale nada. ”Eu conheço a história e sei da aliança”, disse o monge, ”mas também sei que essa aliança existe a mais de quarenta anos e esse jovem não deve ter mais que dezoito anos, ou seja, já nasceu sob a égide da aliança, nunca teve chance de escolher ou questionar”. Todos olhavam para o monge, inclusive Jhetro que parara de tremer. “Por essa argumentação mais da metade dos que matamos eram inocentes”. Agora perguntem a ele quantos da minha tribo, entre mulheres e crianças ele matou”? O monge pensou um momento e falou, ”Essa é a diferença, se você luta contra grandes injustiças não pode também você cometer injustiças sob pena de ser mais injusto que seus inimigos”. Luzir calmamente respondeu, “tens razão mais uma vez Monge, vou poupar o encantado”, e dito isso foi até o prisioneiro, pegou o prego da mão de Clarão e cortou-lhe as amarras, o jovem sorria sem entender, o Cão também sorria e foi sorrindo que cravou o prego no coração do encantado. ”O que é isso, não disse que iria poupá-lo”? Inquiriu o monge. “E vou, é só você ressuscitá-lo”, completou voltando para a montaria.
O Cão ia rápido, solitário na frente como batedor, mais atrás o grupo e mais atrás ainda o monge puxando o cadáver no lombo do búfalo. O Cão estava inquieto, excitado, nunca o tinham questionado em suas decisões, as novidades eram muitas e profundas, Jordânia vinha com um filho seu nos braços, um monge ressuscitado entrara para a matilha. Nesse momento as vozes que desde a infância o acompanhavam diziam; “os corvos pintados por ele, dois dias antes da sua morte, não lhe abriram as portas de certa glória póstuma, como tampouco o fizeram suas demais telas, mas abrem para a pintura pintada, ou melhor, para a natureza não-pintada, a porta oculta de um mais-além possível, de uma permanente realidade possível através da porta aberta por Van Gogh para um enigmático e sinistro mais-além”. Pretendia questionar o monge a respeito do significado dessas palavras, porém o monge parecia estar contrariado com a missão de reviver o encantado. O sol estava baixo e o frio já era intenso, todos agasalhavam-se com roupas dos mortos e vestimenta dos guerreiros encantados. O monge, de sandálias, saia de couro e uma manta nos ombros, olhava com saudades a batina que tirara num movimento simbólico ser usada pelo guerreiro Azar. Luzir ao invés de diminuir aumentara o ritmo da marcha, os búfalos galopavam como cavalos, o cadáver pulava no lombo do animal. Jordânia trazia o filho embrulhado às costas, o monge foi até Jordânia e falou. ”Diga ao Cão que podemos ir mais devagar, pois os povos encantados recolhem-se com as primeiras sombras da noite”. Jordânia sem diminuir a marcha respondeu; ”Você acha que Luzir mantém o ritmo por causa de Anjo Torto? Luzir mantém o ritmo para não morrermos congelados”. A temperatura era de -15º.·.

Parte XV – Bons momentos


Quando fizeram à primeira parada, o sol já nascia e a localidade era desértica e arenosa com apenas um oásis. Azar e Holocausto Clarão, banharan-se junto a um pequeno córrego, ”você notou que o Cão não rogou pragas durante toda viagem”? Observou Azar. ”É, não disse nada depois da conversa com o monge”, concordou Clarão. Luzir encostado ao búfalo que sentara para descansar observava Jordânia amamentar a criança. Um leve calor nas têmporas indicou a chegada da voz, “Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser seus cúmplices na vida amealhadora e covarde e algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis. Nesse caso, a reclusão não é sua única arma e a conspiração dos homens tem outros meios para triunfar sobre as vontades que deseja esmagar. Além dos feitiços menores dos bruxos de aldeia, há as grandes sessões de enfeitiçamento global das quais participa, periodicamente, a consciência em pânico”. Luzir desencostou-se do búfalo que instintivamente também levantou e fez sinal para que o monge se aproximasse. O monge veio e disse, ”não sei de onde você tirou a idéia que eu tenho o dom da ressurreição, pois pelo que me consta foi você quem me ressuscitou”.  “O que eu aprendi com a morte foi regenerar tecidos e ferimentos.” “Certo, certo”, concordou o Cão, “depois resolvemos isso, o que eu quero com você é outra coisa”, completou. Em seguida contou ao monge sobre as vozes que escutava. Fez-se um breve silêncio e Luzir voltou a falar; “a razão de minha preocupação repentina, é que desde a infância acreditei serem os deuses a falar comigo, mas depois de sua ressurreição e de suas explicações referente a religiões e seus deuses, fiquei a perguntar-me, quem fala comigo”? O monge estava fisicamente desconfortável, durante o relato de Luzir ele estivera sentado, em pé, tornara a sentar, na verdade sessenta quilômetros no lombo de um búfalo fora demais para quem nem a cavalo havia andado. Sentia dores no corpo e estava esfolado nas pernas, bunda e arredores. Diante de um olhar incisivo do Cão, disse; “dê-me alguns minutos para meditar, vou tentar concluir alguma coisa”, e a exemplo de Clarão e Azar entrou no córrego, permanecendo com apenas a cabeça fora da água. Jordânia, mais abaixo, banhava o bebê, mas esse logo mergulhava como um peixe, obrigando a mãe a trazê-lo à tona. Todos riam e Jordânia repetia a operação. O monge voltara até onde estava o Cão; “repassei seu relato e digo que há 70 anos, as últimas bombas nucleares destruíram os últimos resquícios da última civilização. Em conseqüência tudo foi destruído. Os primeiros monges da radiação, 30 anos depois levaram ao mosteiro um objeto conhecido como computador, mais dez anos para conseguir montar um gerador, sem o qual o aparelho não funcionava. Funcionou três meses, e eu fui um dos que puderam copiar textos, textos em idiomas extintos, de homens de todas as tribos que já viveram no mundo, que habitaram o planeta desde o início dos tempos, escritos de todas as épocas e sobre todos os assuntos, a sabedoria dos monges, que muitos creditam a espiritualidade ou a proximidade com deus, na verdade vem da leitura destes textos. A maioria deles só vim a entender depois de minha morte. O que você escuta são fragmentos desses textos. A única explicação razoável é que abaixo da consciência, existe a subconsciência, ou a inconsciência. A qual não dominamos, porém é atuante, viva e independente, todos nós temos. Diferentemente da consciência, o inconsciente não se apega tanto ao individual é um saber que prefere se agregar, dessa forma ele anda misturado a infinitos outros saberes e isso é assim a milhões de anos é uma descomunal massa de saberes, daí: inconsciente coletivo. Esse saber fala a seu ouvido desde a infância, isso explica sua aguçada inteligência e sua desde muito cedo distinção como líder entre os povos das estepes”. Luzir agradeceu ao monge que retornou ao córrego e com as têmporas em brasa concentrou-se na voz; ”Tudo o que, aos olhos dos seus contemporâneos pareceu mero delírio e sintoma de loucura, agora é referência obrigatória para as mais avançadas correntes de pensamento crítico e criação artística nas suas várias manifestações: teatro, arte de vanguarda e criações experimentais, manifestações coletivas e espontâneas, poesia, lingüística e semiologia, psicanálise e antipsiquiatria, cultura e contracultura”. Muito do que Cão Luzir ouvia era de difícil assimilação por não existir mais muitos fazeres humanos que desapareceram com a guerra atômica, porém Luzir deduzia e elaborava mentalmente apreendendo muito com a voz. O monge lavou e estendeu em um arbusto a batina que Azar tirara para banhar-se. “O que você está fazendo com minha batina”? Quis saber Azar. ”Sua batina? Eu a tirei em um gesto simbólico e você se adonou. Quase morri congelado na noite anterior, pode esquecer-se da minha batina”! Concluiu o monge. “Tudo bem monge, você tem muito crédito comigo, na verdade gostaria de agradecer ao amigo por ter curado minha coluna e também nunca achei certo homem andar de saias”, disse Azar afastando-se rapidamente, mas não sem antes ouvir alguns resmungos do monge.
As armas dos encantados eram decoradas com arabescos nas lâminas das espadas, dos punhais e lanças. E foi com uma espada rica em arabescos que o Cão decepou de um só golpe a cabeça de um búfalo, que ainda deu vários passos acéfalos. “Esse o monge não ressuscita”, brincou Clarão que dificilmente falava. O monge não estava gostando de ser motivo de troça para os selvagens. Mais tarde, Azar segurava o bebê na margem do córrego enquanto Jordânia e Luzir fodiam dentro da água. Clarão aproximou-se do monge trazendo-lhe um imenso pedaço de carne de búfalo assada sentou-se e disse de um fôlego só; ”monge, eu sou homossexual e sempre pensei que fosse pecado, depois dos seus esclarecimentos passei a sentir-me bem melhor”. O monge engasgou-se. Clarão, ajudando-o com leves batidos nas costas continuou; ”e agradecendo a restauração do meu braço queria fazer apenas uma observação”, mostrando os braços esticados falou; “não está um mais curto que o outro”? O monge encarou-o sério e Holocausto Clarão, o guerreiro pregador de cabeças, sorrindo afastou-se.
Parte XVI – A fórmula do Delírio
À noite fizeram uma fogueira e de pé ao lado do fogo o Cão anunciou; “agora nosso monge irá reviver o encantado”. Mais uma vez um engasgo do monge, que devorava outro pedaço de búfalo. Levantou-se e disse ao Cão; “Para tentar ressuscita-lo, precisamos da sua poção mágica”, “você se refere a “delírio”? Inquiriu Luzir. ”Sim, a que você usou na minha ressurreição, e que depois analisei um fragmento, e sei ser, vou repetir a fórmula que você me disse com o nome científico dos elementos; delírio: uma poderosa mistura de folha selvagem; (Cannabis sativa), com água radioativa (H2O), peixe seco; uma espécie de baiacu, que contém uma neurotoxina mortal chamada (tetrodotoxina), papoula; O nome científico da planta (somniferum), relacionado a sono, que produz duas drogas; (ópio e morfina), nome derivado do deus da antiga mitologia (Morfeu), o deus dos sonhos, sangue de feto; (rico em células tronco), espuma de sapo boi; (Bufo marinus, que produz inúmeras substâncias tóxicas), olho de cobra coral; (Micrurus albicinctus). Seu veneno com propriedades neurotóxicas, e altamente ativo, paralisa os nervos que controlam o diafragma, causando insuficiência respiratória aguda, rezada em Anzabiage; essa última parte acreditei, ser apenas crendice ou encenação dos bruxos, mas concluí que anzabiage é uma reza, uma antiga cantilena, executada em três tempos, pela manhã, tarde e à noite. Com no mínimo de 18 horas de rezas, justamente o tempo que os elementos químicos da fórmula precisam para reagirem entre si. Todos ouviam atentamente, e o monge cada vez mais, conquistava a admiração dos selvagens.
“Mais uma mistificação que cai”, pensava Luzir, ”e eu que acreditava piamente que os poderes do delírio eram mágicos”. Voltando-se para Jordânia falou, “dê uma bola de delírio para o monge”.
Trouxeram o cadáver do encantado, estava morto há vinte horas, o monge ajoelhou-se junto ao corpo. As chamas da fogueira bruxuleavam nas silhuetas. Com a mão esquerda ia colocando pequenas partículas de delírio na boca de Jhetro. O único movimento era o das chamas, Luzir, Azar, Clarão e Jordânia, observavam. Repentinamente o monge soltou um berro. Levantou-se com a mão ensangüentada e disse; ”o morto mordeu-me”! Todos olharam para o encantado, que sorrindo, espreguiçava-se no chão. Não tiveram tempo de maiores observações, pois um tropel de cavalos levou-os direto as armas. Clarão arrastou uma grande costela de búfalo em cima do fogo, apagando-o. Luzir, Azar e Jordânia com o bebê as costas, sumiram nas sombras. O monge olhou para o ressuscitado, calmo e tranqüilo a seu lado, e deu-lhe uma paulada na cabeça. Eram três os cavalos, mas cavaleiros eram dois, nem bem entraram no acampamento, já tinham ambos, companheiros na garupa, Clarão dominou o primeiro, e Jordânia o segundo. ”São os guerreiros do Cão, são os guerreiros do Cão” gritava o homem atirado ao chão com o sabre de Jordânia em sua garganta. ”Cale-se imbecil”!Disse Jordânia e completou; ”quantos mais vem por aí”?”Nenhum” respondeu. O Cão apareceu das trevas, “deixe que eles sentem-se”, falou, ”agora me digam, quem diabos são vocês”?
“É uma grande honra, estar na presença do”, ia dizendo o homem, no que foi interrompido por Luzir, ”poupe-me dessa conversa, quem são vocês”? A outra pessoa falou; “eu sou Sâmara, e esse é Manolo, meu marido, somos selvagens da alcatéia sul, fomos atacados por Chocho e seu exército, descontando as duzentas mulheres raptadas para os haréns, toda a aldeia foi morta, os homens lutaram bravamente, mas em número reduzido foram exterminados pelos novos homens, que ainda afirmaram que Cão Luzir tinha morrido”. “Nós vínhamos voltando, do campo, onde lacei um cavalo novo, e vimos à aldeia em chamas, eu quis voltar e lutar, mas Sâmara me impediu, cortando meu tendão, da perna, pode ver”, disse Manolo, mostrando o rasgo, próximo ao pé, na perna esquerda. “Prefiro um homem manco a um homem morto”, concluiu Sâmara. “Soltem-nos, e deixe que eles comam algo”, ordenou Luzir.
O Cão observava a qualidade dos cavalos, e concluiu que, um realmente, não tinha sido domado, o que comprovava a versão do casal, de não estarem na aldeia na hora da batalha. Notou a aproximação do monge. “Pode falar monge”. ”Temos um problema, o encantado que eu ressuscitei, Jhetro, esse é o nome dele. É um nascido nos territórios encantados, possui no corpo muita magia, ou seja muita droga, e como recebeu mais, o potente delírio que o reviveu, ele está muito doido”. “Ele está revoltado, está nos pondo em perigo? Mato-o de novo”. Respondeu o Cão. ”Não é nada disso, está até de muito boa paz para quem foi soldado do Torto, é que anda meio maravilhado, rindo a toa”, “monge, se ele obedecer às ordens, e não prejudicar as estratégias, o resto é tolerável”. Concluiu o Cão, separando-se do monge e entrando na escuridão. Uma voz falou ao Cão: “Quem tenta escrever à moda de Artaud só consegue produzir cópias empalidecidas, evidentemente epigonais. Artaud é único, irrepetível e principalmente irrecuperável; qualquer estudo acadêmico a seu respeito consegue apenas captar algum dos seus aspectos e facetas. O que ele nos deixou, o que ele efetivamente transmitiu foi, não um conjunto de ensinamentos ou de normas estéticas, mas sim uma atitude, uma postura de rebelião radical, de inconformismo e de recusa a compactuar com a nossa civilização”. Quando voltou, Luzir viu que todos sentavam em semicírculo em volta do fogo, para ouvir o monge. Então Azar perguntou; “Sabendo que deus não existe, os homens não vão achar que tudo é permitido”? “Em verdade vos digo, devemos ser justos e praticar o bem, porque essa é a melhor forma, a mais inteligente maneira de vivermos em sociedade. E não por medo de castigos vindos do além”. Respondeu o monge. “Mas e os que não agem como se tudo fosse permitido”? Perguntou Sâmara “Em verdade vos digo, a esses, devemos castigar”. Disse. “E porque devemos ajudar aos necessitados”? Quis saber Clarão. “Em verdade vos digo, quanto mais necessitados ajudarmos, mais ajuda teremos quando necessitarmos”. “E como explicar Chocho, que rouba, saqueia, assassina, extorque até os novos homens, não divide nada com ninguém, e até os seus amantes, assim como seus soldados, não acode em caso de necessidade”, perguntou Jordânia. “Em verdade vos digo, os pecados, conhecidos como sete, que na verdade são bem mais, existem e são os piores inimigos da humanidade, estavam por trás de todas as guerras, inclusive a última, atômica, da qual somos sobreviventes. E Chocho está corroído por eles, por isso em breve ele sucumbirá em definitivo”, respondeu o monge. Palmas e gritos foram interrompidos pela presença do Cão. “E Luzir, o que tem a nos dizer”? Falou pela primeira vez, o maluco Jhetro. ”Eu, acho que os selvagens devem continuar acreditando em deus, pois deus é a simplificação de coisas complexas, enquanto não tivermos capacidade de entender as complexidades, precisamos de simplificações, que ditem algumas normas de convivência, pois de outro modo, começaremos a matar uns aos outros. E é isso que esperam nossos inimigos”, nesse momento, houve um enorme estrondo, e a noite se fez dia, muitos arco-íris surgiram no céu, todos, sem exceção, enterraram-se na areia, pois, acostumados desde a infância, a proteger-se de explosões atômicas. Eventualmente, pedaços de mísseis, ogivas não detonadas, sobras da guerra nuclear, explodiam aqui e acolá.

Parte XVII - O estereótipo

Mesmo embaixo da terra, Jordânia amamentou seu filho. Agora, todos tiravam a areia do corpo. Uma das características dos selvagens, era a facilidade de não apegar-se a quase nada, simplesmente subiam em suas montarias, e partiam, sem nem olhar para trás. E foi o que fizeram. Azar, a cavalo, seguia na frente, um pouco atrás, ia Jordânia, Luzir, Monge e Sâmara, sendo que o Cão e sua mulher montavam cavalos. Manolo e Jhetro dividiam o mesmo búfalo, observados por Clarão, que vinha por último. “E então Sâmara, vá nos descrevendo a situação nos acampamentos”, ordenou Luzir, cavalgando acelerado e impondo o mesmo ritmo a todos. “Acho que eram dois mil soldados a nos atacar , entre novos homens, gladiadores, selvagens mercenários e muitas, mas muitas milícias macacos”, disse a mulher. “Milícias macacos, esses malditos aleijões de laboratório”! Praguejou o Cão. “Eles não são aleijões”, corrigiu o monge, “são vítimas da radiação, sofreram mutações genéticas, e tiveram certa regressão aos parentes ancestrais do homem, ou seja, aos macacos”. “Pois se lutassem ao meu lado, seriam; regressivos genéticos, mas como lutam pelo inimigo, são malditos aleijões de laboratório”. Respondeu o Cão. “A aldeia está vazia, pois levaram até os cadáveres, para a fabricação da carne”, informou Sâmara. Azar fez um sinal com a mão, o grupo se dissolveu. É notável o talento dos selvagens nômades, sejam eles homens, mulheres, velhos ou crianças. O mimetismo que desenvolveram, inclui não só poder ficar horas enterradas na areia, esperando sua presa, como agarrado a ranhuras de um rochedo, tal qual uma iguana, desafiando as leis da física, ou, segurar-se lateralmente a montaria, de maneira a parecer que o animal passeia solitário. Esses procedimentos foram adotados apenas por suspeita, de aproximação de algum perigo, que não se confirmou. Continuando a marcha, Luzir perguntou; “E as outras alcatéias”?, Manolo que se aproximara, com Jhetro na garupa, disse; ”a grande nação do norte, da qual Luzir é líder, não sabe de nada”, Sâmara interrompeu-o; “Eles aguardam a volta do Cão, sabem que foram à montanha do saber procurar ajuda para Jordânia, que tinha o pescoço rasgado por um garrote de aço, mas noto que a guerreira já está curada, e não ficou nem uma cicatriz, outra coisa”, olhando diretamente para Jordânia; “estás com um filho nos braços, todos pensavam que não gostavas de homens, és conhecida como a mulher macha”. Jordânia franziu o cenho e falou; ”vejo que és mulher de língua solta, e isso não faz bem a saúde, mas vou responder-te; essa lenda nasce por eu ter em combate, a bravura de dez homens, e minha agilidade com os sabres não ter par, e isso causa inveja e preconceito em muitas pessoas, então me botam apelidos e inventam mentiras a meu respeito. Mas não me incomodo com a alcunha de mulher macha, o que me incomoda são pessoas tagarelas como você”. Sâmara com grande sacrifício, nada respondeu. O vento soprava forte, o Cão acelerou o galope, e a voz disse: “O chimpanzé e os seres humanos compartilham cerca de 99,5 por cento de sua história evolutiva, no entanto a maioria dos pensadores humanos considera o chimpanzé uma excentricidade malformada e irrelevante, enquanto se vêem a si próprios como degraus para o Todo-poderoso. Para um evolucionista isto não pode ocorrer. Não há fundamento objetivo para qual elevar uma espécie acima de outra. Chimpanzés e seres humanos, lagartixas e fungos, todos evoluímos durante aproximadamente três bilhões de anos por um processo conhecido como seleção natural. Dentro de cada espécie alguns indivíduos têm mais descendentes sobreviventes do que outros, de modo que as características herdáveis (genes) daqueles reprodutivamente bem sucedidos tornam-se mais numerosos na geração seguinte. A seleção natural é isto: a reprodução diferencial não aleatória dos genes. Ela nos formou e é ela que devemos entender se quisermos compreender nossas próprias identidades”. Um grande relâmpago anunciou o temporal no mesmo instante que Azar sinalizou a alcatéia sul. Entraram na aldeia sob uma chuva torrencial. Tudo destruído e queimado, vários corpos carbonizados, algumas crianças e jovens moças, semidevoradas pelos canibais, que depois da matança, fizeram grande refeição no local. Sâmara começou a gritar e chorar, pois em frente sua caverna encontrou a cabeça e os dois pés de seu filho. Jhetro, muito sério, perguntou a Clarão; “porque devoraram as crianças”? “Por terem a carne mais tenra e macia”, respondeu. Mais tarde, todos se abrigaram na caverna central da aldeia, Jhetro ofereceu-se para ficar fora, de vigia, parecia envergonhado, de ressaca, Luzir consentiu. Era um grande paredão arenoso, com várias habitações esculpidas, todos entraram na única caverna iluminada, Jhetro observava a dança das sombras, e atentava para os ruídos, vagarosamente, e olhando para os lados, afastou-se para longe da claridade, provocada pelo fogo dentro da caverna principal. Estava muito inquieto, e remexia em um alforje, quando tirava a mão da sacola, sentiu uma poderosa garra segurar-lhe o pulso, com o coração batendo na garganta, e de olhos esbugalhados, viu a figura horrenda de Cão Luzir.  Azar despejara no chão, o conteúdo do alforje. Todos olhavam para o encantado, que desesperado, pedia para que Luzir o matasse. “Primeiro preciso saber que espécie de traição você estava tramando”? Proferiu Luzir. “Traição nenhuma”, disse o monge, “veja o que tinha na sacola, papoulas, cânhamos e sobras de delírio”. “E o que significa isso”? Quis saber o Cão. “Esse homem, nasceu nos territórios encantados, território em que a radiação decompõe e dispersa no ar toda a vegetação rasteira, como peiotes, cânhamos, papoulas e etc. Por isso que, vocês enlouqueceram quando lá entraram, e foram vencidos pelo Anjo Torto, pois eles são imunes às toxinas do ar, a magia, se preferir, mas são dependentes. E ao saírem dos territórios, a síndrome de abstinência é insuportável. É o que está acontecendo com Jhetro”. Luzir olhou para o encantado, que encharcado de suor, tremia, mas encarava firme o Cão, olhou para as drogas que estavam na bolsa, Juntou todas, acrescentou boa quantidade de folha selvagem, colocou em um cachimbo de osso, que Jordânia lhe alcançou, ascendeu, deu graças e passou aos seus discípulos, deu duas grandes tragadas e passou para o encantado. Todos fumaram.
Em um determinado momento Manolo anunciou, ”vou buscar presentes para todos”, o Cão e o monge olharam-se por um instante, estavam todos sob o efeito do delírio, podia ser alucinação, mesmo assim Luzir falou; “Azar e Clarão vão te acompanhar”, uma hora depois, voltaram trazendo dois pesados baús, ambos repletos de armaduras, elmos, espadas, machados, toda indumentária de guerra, do mais bem acabado artesanato selvagem. O Cão, experimentando uma espécie de colete de couro com arame trançado, questionou, ”Onde diabos você conseguiu isso”. “O velho artesão Tarik, mostrou-me certa vez, as duas arcas escondidas no subsolo de sua habitação, guardei segredo como ele me pediu, mas ao constatar a destruição da sua casa, hoje à noite, venho-me a idéia se não faríamos melhor proveito”, explicou Manolo. Todos se paramentavam, inclusive o monge, qual crianças com novos brinquedos. Azar descobriu uma bolsa de couro, com álcool de frutas, erguendo-a disse; “brindemos a vitória dos selvagens”! E todos beberam e fumaram muitos cachimbos de delírio.
Nem bem amanhecera o grupo já seguia para o norte, ao encontro da grande alcatéia. O Cão, como sempre, mantinha ritmo acelerado. O monge, emparelhando as montarias, disse; “Vamos a grande alcatéia, reunir o seu exercito, e fazer guerra com os novos homens”? “Sim” respondeu secamente o Cão. O monge foi direto ao assunto; ”gostaria de saber por que você mata crianças”? O Cão levantou o braço, todos pararam, sinalizou a Azar para montar a vigia, e numa fração de segundos, o inconsciente coletivo falou novamente ao ouvido do Cão; “Aristóteles dizia que: qualquer um pode zangar-se, isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa, não é fácil”. Luzir falou; “quais crianças? Os filhos dos novos homens? Aquelas crianças limpinhas e saudáveis, alimentadas com a carne de crianças selvagens, moídas e transformadas em bolos, salsichas, biscoitos e outras guloseimas da cozinha canibal? Ou você vai defender as avós, as senhoras, que tomam chás com canapés de olhos humanos, seios de virgens retalhadas? É a esses monstros que agora o monge vai defender”? O ar ficou carregado, mas mesmo assim o monge falou; “Isso eu sei, mas é que eles não são como nós, não nasceram adaptados à radiação, se comem carne de caça, uma batata, uma fruta, morrem em menos de uma semana”. Luzir estava prestes a estourar, Clarão, fazia malabarismos com seu novo machado e olhava para o monge. Luzir respondeu, “sabe por que eles são tão sensíveis à radiação? Porque com a iminência da guerra atômica, construíram abrigos, de forma egoísta, com capacidade apenas, para poucos abastados e alguns agregados, deixando a população, exposta a radioatividade e as pestes, e ainda formaram milícias para exterminar os que tentassem se proteger em um de seus abrigos, aconteceu a mim e a meus pais, e a milhares de outros. Porém o que eles subestimaram, foi a grande capacidade de adaptação do ser humano, e os sobreviventes, que somos nós, nascemos e geramos filhos imunes à radiação. Justamente por sermos imunes, somos a única fonte de proteína e vitaminas não radioativa, que eles podem consumir, estás entendendo monge, é uma guerra sem possibilidade de trégua, eles precisam devorar - nos, nós temos de matá-los, a todos. Ou talvez, possamos montar creches e dar nossos filhos, para as crianças comerem? É impossível qualquer acordo”. O monge não soube o que dizer, Luzir completou; ”e agora vamos à alcatéia, vamos sangrar novos homens”! E com vigorosa selvageria, galoparam em suas montarias, gritando como alucinados, apenas o monge ficou um pouco atrás. A certa altura, o Cão ordenou que os outros continuassem, fez meia volta e emparelhou com o monge, que vinha tranquilamente chacoalhando em cima do búfalo. “Monge, está ficando muito difícil liderar os guerreiros com você me questionando o tempo todo, e não é insegurança, ou incapacidade para enfrentar os desafios, mas é sobre os fundamentos de suas indagações. São questões que me põem dúvidas, e isso me preocupa, é perigoso, na hora da guerra não posso ter dúvidas, no confronto sempre o que morre é o que tem mais dúvidas. Então, peço que não faça questionamentos no campo de batalha, guarde-os para quando estivermos celebrando a vitória, com um imenso cachimbo de delírio”. E dito isso, voltou a liderar os selvagens. Reno tinha doze anos, e afirmava ter perdido a lança de caça, nas costas de um grande mamute preto. Seu pai, Tozzo, não aceitava essa desculpa para a perda de sua arma, mesmo com quatro outros meninos confirmando a história. Tozzo levou o caso a Ernesto, líder do acampamento. Esse, junto com Tozzo e mais cinco guerreiros, foram até o local indicado pelas crianças. Notaram que os rastros mostravam a presença de um mamute, pegaram suas montarias e seguiram as pegadas. Uma hora depois, avistaram, pisoteados, alguns arbustos. Quando um guerreiro colocou o ouvido junto ao chão, para medir a localização do animal, ouviu foi o tropel de várias montarias. Azar, vinha à frente, seguido por Jordânia, Luzir, Clarão, Monge, Manolo e Jhetro, que ouvia Sâmara falar ininterruptamente. Ouvia e constatava a semelhança do idioma encantado com o da mescla. Ao atravessar os arbustos, Azar sentiu a terra mover-se, mas não toda a terra, apenas alguns pontos, qualquer procissão, passaria mil vezes ali, e não perceberia o movimento que Azar percebeu. Diminuiu o ritmo, o que automaticamente alertou Cão Luzir, Jhetro pos a mão na boca de Sâmara. Jordânia, desembainhando o sabre, colocou o bebê nas costas. Manolo desceu da montaria, Clarão, agarrou-se na lateral do cavalo, deixando esse trotar vagarosamente. Todos esses movimentos aconteciam simultaneamente. Azar pulou do cavalo em cima de um guerreiro, enterrado, de tocaia, Clarão surpreendeu um segundo, mas um terceiro surgiu de baixo da terra e pulou em suas costas. Outros quatro apareceram das areias do deserto, com sabres, lanças e adagas. Luzir emergindo da terra entre os guerreiros que o cercavam, disse, reconhecendo o líder do bando; “Ernesto, estás a me fazer emboscadas”? “Cão Luzir”! Exclamou Ernesto, abrindo os braços. “Nosso líder voltou”! Completou Tozzo.

Parte XVIII - O Fragmento




Luzir e seus guerreiros tiveram uma chegada triunfal à alcatéia norte, o último grande aglomerado de nômades, tinha população de dezoito mil habitantes. Sete mil mulheres, seis mil homens e cinco mil crianças. Com esse contingente teria de enfrentar cinqüenta mil do exercito de Chocho, entre novos homens, mercenários e milícias macacos. E esses dois grupos, não mais que setenta mil habitantes formam a totalidade de pessoas restantes no planeta. As mulheres cercaram Jordânia, era curioso ver a mulher macho com o filho nos braços. Luzir acompanhado do Monge, Clarão e Ernesto foram diretos para a Caverna do Cão. Ernesto falou; “comandante Luzir, temos dez mil prontos para o combate, seis mil homens entre jovens e velhos e de três mil mulheres jovens. Os restantes são velhos que cuidarão das crianças e da retaguarda”. ”Chocho está confiante e bem armado, acabou de massacrar a pequena alcatéia sul, isso pode ser bom, não está esperando retaliação, inclusive pensa que morri em terras de Anjo Torto”, disse o Cão, no que o Monge completou; ”Temos de levar em consideração, que dos cinqüenta mil de novos homens, vinte cinco são de mulheres e crianças, porém, dos vinte cinco mil restantes, cinco mil são milícias macacos, onde cada um desses primatas tem a força de quatro homens”. “Mas são dez vezes mais burros do que nós, eu sozinho em batalha já decepei seis deles”. Argumentou Clarão. “Mas nem todos tem o talento e a coragem de um Holocausto Clarão”. Observou Ernesto. “Não seja modesto, você mesmo já enfrentou vários deles e, no entanto está aqui para contar a história”, respondeu Clarão. “Bom, agora chega de conversa, depois chamo vocês”, disse Luzir e completando falou ao monge; “chame o encantado, quero falar-lhe”. Minutos depois, Azar entrou na caverna e disse; ”Jhetro está aí fora comandante, mando-o entrar"? “Sim e você pode ficar também”, respondeu Luzir. O ex-guerreiro de Torto entrou no aposento do Cão. “Espero que eu não tenha feito nada de errado”, disse Jhetro. “Depende”, respondeu o Cão e completou. “Vamos ver o que você tem no alforje” “É só as minhas folhas e sementes”, disse. “Pois é isso mesmo que preciso”, proferiu o Cão colocando boa quantidade da mistura em um grande cachimbo de osso humano. Ascendeu, deu duas longas tragadas e passou a seus discípulos dizendo; “fumemos todos nós, pois a alegria é sempre para já, seja na guerra ou na paz, devemos viver todos os momentos o mais intensamente possível, a felicidade nunca é para daqui a dez, ou mil anos, ou é para agora ou não é para nunca”. Dito isso, fumaram com tanta intensidade que alcançaram à terceira dimensão. Na sexta dimensão, o Cão perguntou; ”Jhetro, quando Torto conseguia um bom carregamento de selvagens onde era feita a entrega”? “Carregamento vivo era feito no limite oeste do território encantado, já carregamento de cadáveres tinha de ser entregue no portão lateral do grande abrigo anti nuclear dos novos homens”. Respondeu o encantado. ”Azar”, disse o Cão, “quanto de explosivos trouxemos do assalto ao paiol do verme Cornélio”? “O suficiente para mandar pelos ares metade da muralha central do abrigo dos novos homens”, disse.
Era alta madrugada, mas ordem do Cão não se discute e em uma hora a população de dezoito mil selvagens entre guerreiros, guerreiras, velhos e crianças, na melhor tradição dos nômades estavam a caminho e caminho acelerado rumo ao grande conglomerado de abrigos dos novos homens. Passados alguns quilômetros, o Monge emparelhou montaria com o Cão; ”Espero que Luzir pense bem no que tenho dito a respeito das crianças dos sedentários”. ”No momento que tenho a chance de vingar meu povo, chance esperada por décadas me aparece você para impor restrições, garanto que entre os novos homens não tem nenhum monge conselheiro”, disse o Cão. ”Talvez até tenha, mas não lhe dão ouvidos”, falou o Monge. “Pois eu também não dou”. Concluiu Luzir. “Com você é diferente, você foi picado pelo inseto do saber e o saber é redentor, é justo, ético e acima de tudo humano”, insistiu o monge. “Mas se o saber é tudo isso, como você explica as atitudes dos novos homens, já que eles detém todo o saber que restou”? Inquiriu o Cão. ”É que o saber se subdivide em três, o racional, (observo, penso e ajo), o irracional, (guerra, impulso) e o apetitivo, (os apetites do corpo, sexo e comida), os dois últimos devem sempre se submeter ao primeiro. E isso não aconteceu com os novos homens. Mas com você é diferente, está em formação do saber e provavelmente será o fundador da nova humanidade, por isso deves agir com prudência que é o pai e a mãe de todas as virtudes, ter o saber é ter todas as virtudes, se não tiveres uma é porque não tens o saber. Isso nos ensinou um antigo sábio chamado Aristóteles”. Dito isso o monge se retirou. As têmporas do Cão pareciam em brasa, e a voz do inconsciente falou; “Se a virtude é, fundamentalmente, uma atividade segundo a razão, mais precisamente é ela um hábito segundo a razão, um costume moral, uma disposição constante, reta, da vontade, isto é, a virtude não é inata, como não é inata a ciência; mas adquiri-se mediante a ação, a prática, o exercício e, uma vez adquirida, estabiliza-se, mecaniza-se; torna-se quase uma segunda natureza e, logo, torna-se de fácil execução - como o vício”.
Pela manhã, distavam sessenta quilômetros da fortificação dos novos homens. Luzir chamou Ernesto e ordenou a esse que contornasse com o exército a fortaleza e acampasse em lugar seguro, sem ser visto, aguardando ordem de atacar. E seguiu para oeste acompanhado de Jordânia, Clarão, Monge, Azar, Tozzo, Jhetro, Sâmara e Manolo, (que mancava com o tendão de Aquiles cortado). Desceram uma belíssima serra costeando o oceano. E a noite, fizeram fogueira acampando perto do mar. Sem dar na vista, o monge curou a perna de Manolo antes que fosse consumida pela gangrena. Cão Luzir afastou-se e montou vigia sozinho.
Fumaram delírio e Tozzo falou; “Dizem que o Carniceiro Heleno, braço direito do general Chocho, preferia levar selvagens mortos a vivos, e que em uma caçada, enquanto assassinava mulheres foi surpreendido pelo Cão. Eram sete novos homens e o Cão estava só. Todos armados de pistolas e fuzis, além é claro, das lâminas, Cão só trazia suas duas garruchas. Consta que Luzir entrou calmamente entre seus adversários matando quatro a tiros, enquanto os outros, aterrorizados se mataram com fogo cruzado. Ileso, o Cão salvou seis mulheres e quinze crianças”. Ninguém disse nada, e Tozzo preparava-se para contar outra proeza quando alguém falou, “não foi bem assim”, era o Cão, que surgia das sombras. “Quando cheguei, a aldeia tinha sido arrasada, segui o rastro do carroção, numa encosta da montanha, Heleno, o Carniceiro resolveu que mortos fazem menos barulho que um bando de mulheres e crianças”. Eu os vinha seguindo por horas e achei que era o momento certo para dar o bote, eram sete, tinham um fuzil, três pistolas e armas brancas. Meu velho revolver tinha apenas quatro balas, quando o Carniceiro preparou-se para degolar a primeira mulher, a uns quatro metros de distância, protegido pelas sombras da noite disparei, mas o revolver engasgou. Heleno matou a mulher e pegou uma criança, atirei novamente, mas errei o alvo, atingi outro que caiu morto. Então, todos fizeram fogo em minha direção, fui atingido de raspão na cintura, mas consegui contornar o carroção e pegar a pistola do morto. Matei mais dois pelas costas, Carniceiro e os três comparsas atiraram novamente, outra bala atingiu-me na mão direita, tentei correr e me acertaram a perna, disparei a esmo com a mão esquerda, matei mais um deles e acertei uma criança que pulou do carroção. O Carniceiro quis saber quem eu era, e eu gritei meu nome, os idiotas começaram a disparar apavorados, mais apavorado estava eu, quando ouvi o engasgo do fuzil, denunciando falta de munição, levantei-me e com muita dificuldade fiz mira com a mão esquerda e disparei, explodi a cabeça de um jovem, ele estava na claridade, pude ver seus dentes saindo pela nuca, o que estava ao seu lado correu e sumiu na escuridão, só restaram duas balas no meu revolver, levantei-me e caminhei em direção ao Carniceiro, que desesperado experimentava as armas dos mortos em busca de munição. Eu perdia muito sangue. Parei a um metro do Carniceiro e fiz a mira bem no meio dos olhos, mas antes que eu pudesse puxar o gatilho um estampido ensurdeceu-me e derrubou-me, fui atingido de raspão na cabeça, olhei na direção do disparo e vi a mãe do garoto que acidentalmente eu matara. Mesmo deitado desferi um tiro de baixo para cima que arrancou a tampa da cabeça da mulher. “Virei-me e atirei na barriga de Heleno, mas esse ainda arrastou-se e tentou estrangular-me, e teria conseguido se o balaço no fígado não o matasse antes”. Fez-se silêncio após o relato, o Cão penetrou novamente nas sombras seguido pelo monge. Clarão olhava para Azar que disse; ”Nunca vi o Cão falar dessa forma, mostrar fragilidade”. “Isso é porque ele agora é pai, tem um filho”, disse Sâmara. “Não digas asneiras, Luzir ao contrário de ti, não gosta de fofocas, mentiras e relatos fantasiosos, o que ele mais presa é a verdade, a pura verdade”. Disse Jordânia antes de desaparecer nas sombras. Clarão levantou-se e falou; “A propósito Tozzo, há quinze anos atrás o Cão não salvou seis mulheres e quinze crianças, foram quinze mulheres e vinte duas crianças”. “E como você sabe”? Inquiriu Tozzo. “Porque eu era uma delas”, concluiu retirando-se.
Mais tarde, a vinte metros do oceano iluminado pela lua cheia, no posto de vigia onde estavam Monge, Jordânia, Clarão e Luzir . Luzir falou aos companheiros; “ontem disse a Azar e Jhetro que a felicidade não é uma busca, ou a temos ou não. O que o monge acha dessa minha declaração?” “Acho confusa se a declaração se refere ao imediatismo da felicidade, na maioria das vezes precisamos passar por muita dificuldade para usufruir momentos felizes. Mas acredito que se deve buscar um bem-estar duradouro, mas dificilmente será permanente. Uma das revelações que obtive com minha morte, diz que a felicidade é a química do cérebro, é sensação prazerosa em resposta a estímulos externos. São elementos químicos naturais que em reação a fenômenos externos positivos, “irrigam” as áreas do cérebro responsáveis pelo prazer. Mas podem ser induzidas através de drogas como delírio ou álcool de raízes. Porém a indução por drogas tem várias desvantagens em relação à feita por acontecimentos positivos, primeiro que a consciência registra que é uma felicidade sem fundamento, sem razão de ser, um bônus sem um ônus. E em segundo que a droga passa a ocupar a função da química do cérebro e acaba por atrofiar o procedimento natural. Esse indivíduo sem a droga vai sentir intensa infelicidade, tristeza profunda, que não mais é vencida por acontecimentos positivos, então ele, ou sucumbe à depressão ou utiliza a droga”. “E a pessoa que nunca fumou delírio ou bebeu álcool de raízes, mas mesmo assim é sombria”? Quis saber Jordânia. “Esse caso é o mais sério, a tristeza ocasionada pela substituição do processo natural pelo químico, depois de longo período de dolorosa abstinência é reversível. Já nessa outra situação a pessoa tem uma carência nata de retenção de endorfinas, os elementos se dispersam com facilidade, ou seja, um mau funcionamento da química do cérebro. É a pior das doenças e terreno fértil para todas as outras. Se por acaso essa pessoa beber ou fumar delírio não mais conseguirá parar, pois utilizará não de modo recreativo como fazemos, mas como remédio, e o uso contínuo causa tolerância que requer aumento das doses e assim sucessivamente. É o verdadeiro inferno”. “E eu que sempre pensei que a felicidade só tivesse relação com acontecimentos externos” observou Clarão. “E tem, mas se os estímulos externos não encontram ressonância interna, eles deixam de ser estímulos e não raramente são compreendidos como incômodos”. Concluiu o sábio. Tozzo que havia se juntado ao grupo a tempo de ouvir o monge, pensava; “ou eu sou muito burro ou estão todos loucos, pois não entendi uma só palavra”!
Próximo capítulo; "O inverso da delicadeza"

O Inverso da delicadeza - XIX

Tozzo estava inquieto, sentia-se excluído por não entender o que o monge falava, estranhava os velhos companheiros que agora andavam as voltas com questões filosóficas. Aproximou-se do monge e disse; “não entendi e não gostei das coisas que você anda dizendo”. “Que coisas?” Perguntou o sábio. “Coisas como negar a existência de Deus com ares de dono da verdade e várias outras idéias que só vem a enfraquecer o espírito dos nômades”, explicou. “Enfraquecer”? Espantou-se ele. “Sim, veja o que aconteceu com Jordânia, Clarão, Azar e até o Cão, de selvagens guerreiros transformaram-se em pessoas pensativas, titubeantes. Jordânia era a “mulher macho” agora anda silenciosa pelos cantos em reflexão profunda, Azar só quer filosofar, Clarão perdeu a agressividade e o Cão anda cheio de dedos, fragilizado, inseguro. Ou seja, um bando de frouxos”. Desabafou o guerreiro. “Você já está falando demais”, disse o Cão. “Porque, estou dizendo alguma mentira? Depois que esse monge apareceu vocês quatro mudaram. É o que povo anda dizendo”, retrucou Tozzo. “O povo fala muita porcaria”, irritou-se o Cão. “Você está sendo inconveniente”, disse Clarão. “Inconveniente? Veja essa palavra; Inconveniente! Isso nem é linguagem da mescla! Tu não falavas assim. Está mais efeminado do que nunca”, provocou Tozzo. “Então é hoje que tu vais apanhar de um efeminado”, disse Clarão preparando–se para a briga. “Não", interferiu Luzir, "agora é comigo, ele chamou-me de frouxo”. “Porque não vêm os dois?”, Desafiou Tozzo, que realmente tinha muita coragem. “Nada disso, não vão brigar por uma bobagem”, tentou apaziguar o monge. “Agora é tarde”, decretou Luzir encostando a testa na de Tozzo e dizendo; “pode escolher as armas imbecil”. “Espadas” respondeu Tozzo. Os dois desembainharam as lâminas, Tozzo era exímio espadachim, o Cão? Bem, o Cão era o melhor e mais violento guerreiro do planeta. “Dá uma última olhada e despede-te do mundo ao teu redor”, Gritou Luzir. “Mais fácil é colocar um cachorro no espeto”, retrucou Tozzo. Luzir ameaçou um golpe de cima para baixo, mas Tozzo conhecia a manobra e espetou a barriga do adversário, mas com a mesma rapidez que a espada do Cão subiu, desceu, Tozzo defendeu-se. O Cão cortou-lhe na altura do ombro, Tozzo atacou violentamente, Luzir esquivou-se. A esgrima seguia rápida e barulhenta. Aqui é necessário um esclarecimento, Tozzo era bem mais jovem, porém seu adversário parecia mais ágil devido a tal regeneração exercida pelo monge. Quando feridos na fossa do Torto, o monge não só regenerou as chagas como restaurou a saúde física e mental deixando ossos e articulações novos e a elétrica do cérebro perfeita, Luzir tinha melhores reflexos que o jovem Tozzo. Some-se a isso a natural visceralidade de Cão Luzir, daí podemos concluir que Tozzo iria precisar de toda a sorte do mundo. O Cão agora parecia brincar com o adversário, levando-o a pensar que era possível vencer, mas esquivando-se e ferindo-o constantemente, leve, mas constante. Imolando-o vivo. Quanto mais Tozzo tentava acertar mais se feria, a luta era quase criminosa pela imensa disparidade técnica entre os combatentes. O Monge parecia a ponto de interferir. Depois de algum tempo, Luzir tinha um médio corte na barriga, Tozzo era quase uma peneira ambulante, esvaindo-se em sangue. Quando esse caiu, Luzir ajoelhou-se ao seu lado e disse; “vou decepar-te a cabeça e pendurar no rabo do teu cavalo, para que idiotas do mundo inteiro vejam o que acontece com quem anda por aí a desafiar o Demônio”, e levantou a espada para cortar de um só golpe, porém o inesperado aconteceu, Clarão segurou o braço do Cão e Jordânia pôs o sabre em sua garganta e Azar falou;” Agora chega comandante, ele já recebeu uma boa “lição”. O Cão limitou-se a olhar e sorrir, e em seus olhos era possível ver toda a insanidade do mundo. Jordânia tirou a espada de sua mão e falou;” Não concordamos com o que Tozzo disse, mas você mesmo nos ensinou que ele tem o direito de dizer”, e completou;” além do mais ele é um dos nossos”. Assim que Luzir levantou-se o monge ajoelhou-se ao lado de Tozzo, e imediatamente começou a curá-lo antes que tivesse de ressuscitá-lo. Em seguida foi até o Cão para tratar-lhe o rasgo na barriga, mas esse costurando o ferimento disse; “pode deixar monge, hoje vou fazer à. moda antiga”. Seguiam em ritmo lento rumo ao encontro dos nômades, galopavam em linha, o monge não falava com o Cão, parecia aborrecido, mas repentinamente foi até ele e disse; "as vozes que o doutrinam desde a infância fizeram de você uma personalidade híbrida, mistura de louco com criminoso, tem até um pouco de poesia, um pouco de filosofia e alguma coisa de arte, mas o que predomina parece ser o crime e a loucura". O Cão ouviu e não respondeu ao monge, mas falou dirigindo-se a todos; "Não me sinto traído pela atitude de vocês, seria um erro cortar a cabeça de um valoroso guerreiro como Tozzo. “Garanto que os filhos dele concordam que ela lhe fica melhor em cima do pescoço”. “De qualquer maneira é uma cabeça que não tem muita serventia”. Descontraiu Azar começando a rir. “O Cão ia estragar a espada em uma cabeça tão dura”, disse Clarão, agora com todos gargalhando. “Uma cabeça como essa seria bom para derrubar os portões dos novos homens”, disse Sâmara com alguns já quase caindo do cavalo de tanto rir. "Devíamos usá-la como aríete", completou Jordânia. O monge mal disfarçando o riso falou; “não é correto falar dessa forma da cabeça do rapaz, He, he, não quis dizer da forma da cabeça, he, he, eu falei não falar dessa forma, há! Há! há”! Mas Tozzo, alheio às brincadeiras, sentia-se maravilhosamente bem e cavalgava apalpando o próprio corpo, não entendia como podia estar vivo, bem disposto e sem nenhuma cicatriz no corpo minutos depois de sangrenta batalha, no íntimo começava a compreender o motivo da atenção que todos dispensavam ao Monge. Nesse momento as têmporas do Cão anunciaram a chegada da voz: "Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome".
E assim percorreram 40 quilômetros pela beira do mar.
Próximo capítulo: "Presente de Grego"

Presente de Grego -XX


No interior do conglomerado de abrigos nucleares no prédio principal, o general Chocho bateu na mesa e disse; “Desenterramos várias caixas de fuzis e metralhadoras, agora temos condições de acabar com todos os rebeldes!”
Estavam na reunião; Átila, secretário geral dos novos homens, Voppo, representante dos produtores de “carne doce” e Zaira, médica do centro de pesquisa. Zaira observou; “mas general, nesse caso teremos um grande problema, se acabarmos com os nômades morremos todos de inanição”. “Não me referi a exterminar os nômades e sim acabar com Luzir e seus rebeldes, os nômades são o nosso “gado”, são para engorda e abate”. Retrucou Chocho. “Mas temos informações que o Cão não mais lidera os rebeldes, mas todos os nômades das estepes” Argumentou Voppo. “Não esqueçam que eu fui um nômade, conheço muito bem aquela “raça”, mate as lideranças que tudo volta a ser como antes, mais uma boa dose de “evangelização” e eles se conformam”. Ensinou o general. Átila o secretário geral que até agora estivera calado informou; “existe outro sério problema, os azuis”. “Azuis”? Espantou-se Chocho. “Você passa muito tempo em campanha general, e não sabe o que acontece no interior dos abrigos, agora enfrentamos uma ridícula oposição interna, conhecidos como “azuis”, idealistas novos homens que se recusam a comer “carne doce” e alimentam-se de caça contaminada. Devido à radiação dos alimentos adquirem coloração azulada. Sobrevivem em média um ano a partir do momento que abandonam a “carne doce”, são suicidas”. Explicou o secretário. “São subversivos”, disse o dono da “Nutre bem”, a maior fábrica de “carne doce”. “No fundo querem destruir os princípios que regem nossa sociedade, pregam a igualdade entre nós e os selvagens”, discursou Voppo. “Não vamos exagerar Voppo, o que eles querem é a descoberta de uma alimentação que não seja baseada no genocídio do povo nômade, querem investimento total em pesquisas e não em armamentos e indústrias de alimentação canibal”. Disse a médica. “Viu general, como essas idéias são contagiosas, até a nossa pesquisadora já está ficando azul”. “Deixe de ser grosseiro Voppo, o seu medo não se justifica, o mesmo lucro que você tem moendo seres humanos você terá com qualquer outra espécie de alimentação”. Devolveu a médica. “Talvez possamos dividir investimentos, metade para guerra e produção e metade para pesquisa”, argumentou Átila. “De jeito nenhum, não podemos dar trégua a essa gente, é uma guerra santa, devemos vencer e subjugar os selvagens. Eles são caça, e a carne deles é nossa alimentação. A melhor forma de viver é devorando os adversários. Nada de pesquisas, nada de filosofias baratas, sem humanismos. Vamos caçá-los, matá-los e produzir “carne doce” como reza a nossa tradição”. “Família e propriedade”, disse o dono da “Nutre bem” e completando elogiou; “cada vez me convenço mais que temos um verdadeiro líder”. O general decretou: ”de hoje em diante os “azuis”, serão presos e expulsos dos conglomerados, se gostam tanto dos selvagens que vão para as estepes morar com eles”. “Mas isso é absurdo, não terão menor chance de sobreviver”, argüiu Zaira. “Que pensassem nisso antes de virar “azuis””, disse Chocho encerrando a reunião.
Após três dias de viagem Luzir e seus guerreiros chegaram ao acampamento e foram recebidos por Ernesto que informou; “a dois quilômetros ao sul, tivemos uma escaramuça contra setenta mercenários a serviço dos novos homens, infelizmente quarenta conseguiram escapar, temo que a essa altura Chocho já saiba que estás vivo”. “Quantos mortos?” Perguntou o Cão. “Trinta do lado deles e cinco mortos entre os nossos”, explicou Ernesto. “Eles nos atrapalharam de uma forma, mas vão servir-nos de outra. Selecione dez guerreiros volte lá e traga todos os cadáveres”, disse Luzir. “Voltar lá? Os nossos já foram até enterrados”, espantou-se o guerreiro. “Traga os cadáveres dos inimigos, todos, e sem alarde, compreendeu?” Falou o Cão. “Sem problemas comandante”. Concordou Ernesto retirando-se.
O Cão voltou-se para Jhetro e disse; “Que tamanho é a escolta de encantados que acompanha os carregamentos de cadáveres até os portões dos novos homens?” “Não mais que vinte”, respondeu. “Você por acaso sabe fazer as pinturas e tatuagens que decoram os corpos de sua gente?” “Isso nós praticamos desde a infância, sei uma diversidade de desenhos e arabescos que até o Cão se espantará, mas por que, o comandante vai implantar essa pratica dos encantados entre os nômades?” Perguntou Jhetro. “Vou, mas em apenas vinte de nós”.
Mais tarde enquanto aguardava a volta de Ernesto, o Cão viu a aproximação da mulher. Jordânia queria saber o motivo de não estar entre os vinte que vinham sendo decorados com as pinturas dos guerreiros de Torto. “Os motivos são vários”, respondeu o Cão, “o primeiro deles é que entre os encantados as mulheres são escravas e não soldados, e em segundo lugar eles andam despidos e não teríamos como disfarçar as suas formas. Terceiro é que você é a mais brava entre todos os meus guerreiros, e se eu não voltar você terá de lideras os nômades até a vitória final, e por fim existe o nosso filho”. Nesse momento Azar interrompeu e avisou; “Chegaram, Ernesto e os guerreiros chegaram com dois carroções de cadáveres”. “Certo”, disse o Cão, “preste muita atenção nas instruções, dispa todos os mortos e reúna todo o explosivo que armazenamos, recheie os cadáveres com dinamite e explosivo plástico”. “Mas são bananas de dinamite, terei de rasgar as barrigas para colocar”, observou Azar a respeito da tétrica missão que tinha pela frente. “Não, dessa forma levantará suspeitas, procure orifícios naturais para introduzir os explosivos, será a nossa oferenda aos famintos canibais”. “Então atacaremos com homens-bomba”? Espantou-se Azar. “Não, com cadáveres-bomba, concluiu o líder dos selvagens”.

Nas nuvens - XXI


A uma distância segura do grande abrigo nuclear dos sedentários o Cão e seus guerreiros, tatuados como se fossem encantados, cercavam o carroção de cadáveres recheados de explosivos. Luzir deu as últimas instruções a Clarão, que iria liderar o grupo, em seguida fez sinal a Azar, esse lentamente encostou a garrucha no peito de Luzir e disparou um tiro. O corpo de Cão Luzir foi colocado no carroção por cima dos outros cadáveres. Ao mesmo tempo, próximo dali, Jordânia confabulava com guerrilheiros azuis e o Monge alcançava algumas bolas de delírio à doutora Zaira, líder da oposição ao general Chocho. *Continua