domingo, 29 de agosto de 2010

"Humor Sem Censura" na visão de Hildegard Angel

Por Hildegard Angel em sua coluna no JB

"Uma passeata, para ser eficiente, tem que ser legítima"

Em boa hora, os humoristas saíram em passeata na Praia de Ipanema para protestar contra a impossibilidade de se fazer piadas políticas em época de eleição. A política, como sabemos, é o filé mignon do humor de qualidade.
MAS ESSE protesto oportuno se descaracteriza e fica comprometido quando dá a entender que a censura se deve ao governo. Não é verdade. A LEI das Eleições, 9.504, data de 1997 e, na minirreforma, ganhou penduricalhos que a “turbinaram”, com substitutivos e emendas no que diz respeito ao humor, cujos autores têm nome: são os deputados, do PCdoB, Flavio Dino, candidato a governador do Maranhão, e Manuela D’Ávila(*correção abaixo). Para essa minirreforma ser aprovada no Plenário da Câmara, os deputados votaram. O TSE apenas cumpre o que está escrito.
ENTÃO, NÃO É Lula, não é Dilma, não é o ministro Lewandowski nem é o Franklyn Martins (conforme menção leviana de um dos humoristas desfilantes). São os nossos congressistas!… E ISSO os humoristas da passeata não disseram, não dizem, muito pelo contrário, querem deixar no ar a idéia de que o governo brasileiro cerceia a atividade do humor.ESSA ATITUDE dúbia, manipuladora, só tira a legitimidade de uma causa que é boa, reduzindo-a a mero instrumento de campanha da oposição.
SE NO Brasil de hoje houvesse censura ao humor, nós não teríamos visto, como vimos, no CQC da última segunda-feira, um humorista dizer que o Eike Batista “faturou” a dona Marisa Lula da Silva, nem o humorista ao lado acrescentar que “dona Marisa vai fazer uma coleira com o nome Eike escrito”. ELES SE referiam à atitude descontraída, perfeitamente natural, de ambos, durante um leilão beneficente que o programa acabara de exibir.
FOSSE UMA ditadura com censura, como a que já tivemos, na mesma hora os estúdios da Band seriam invadidos por um batalhão militar, Marcelo Tas e seus humoristas seriam presos, colocados no pau de arara, teriam a pele esfolada, a unha arrancada, o olho furado e, se dessem sorte, seriam devolvidos depois pra casa com uma coleira de pregos no pescoço. MAS O mais provável é que virassem “comida pra peixe”, como se fazia na época.
E eu não estou fantasiando. Vi e vivi este filme nos anos 70 no Brasil.
POR ISSO, senhores humoristas, façam seus protestos, sim, mas com legitimidade, pra não serem rotulados de humoristas “festivos”, como se usava dizer naquela época negra.
OUTRA COISA que está muito na moda dizer, na linha dessa “campanha do medo”, é que há censura em nossa imprensa.NUNCA ANTES neste país se espinafrou tanto (pra não usar outra palavra) um presidente, sua família, seus ministros e aliados como nesta era Lula. E com total liberdade.
JAMAIS OUVI, por exemplo, em época anterior, num programa de TV, um comentário tão constrangedor como esse do CQC em relação a uma primeira-dama. E não me venham aqui criticá-la, porque ela se dá ao respeito, sim!
NOS ANOS FHC, jamais a imprensa tocou no assunto do filho criança do presidente com uma jornalista, morando ambos num conveniente endereço bem longe, em Barcelona, na Espanha. ESSE SILÊNCIO da imprensa não era apenas uma delicadeza com a primeira-dama. Era também o receio de possíveis retaliações comerciais, judiciais, Lei dos Danos Morais etc e tal. Medo que, curiosamente, este atual governo não inspira a jornalista algum. Agora, me digam: onde está a tão proclamada “censura”?

* A Manuela diz que não é com ela, aqui.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Exclusivo, entrevista com "seu" Eusébio

Parte I;
Vargas e Eusébio:

Vargas: E matar?

Eusébio: "Não tenho coragem, nem consigo pensar, só mato na correria e sem olhar pra trás, matar é muito triste."
Vargas: O Senhor se acha um cangaceiro moderno. Já ouviu falar de lampião?
Eusébio: "Nada, eu sou da natureza, eu escorrego, vôo, rastejo, que nem tu. Só que tu não sabes disso. Lampião não conheço, mas imagino que teria facilidades com ele."
Vargas: Lampião era uma espécie de bandoleiro revolucionário, o Sr. é bandoleiro ou revolucionário?
Eusébio: "Se queres destruir um guerreiro faze-o pensar sobre isso. Mas eu vou responder, pois tenho café no bule!"
Eusébio: "Eu sou bandoleiro e sou revolucionário, no Mato Grosso, no sopé da Amazônia, nas grotas, já atacamos remessa de lucro dos latifundiários, e também imagino um lugar melhor para todos, sou tão revolucionário quanto tu, a não ser que tu sejas um canalha."
Vargas: Mas o Sr não acha que esse tipo de ação só fortalece uma repressão mortal e avassaladora, além de diluir idéias tão nobres?
Eusébio: "Nos sertões é só o que funciona, na ausência do estado muitas normas são escritas com bravura, até involuntariamente, ou faz ou morre."
Vargas: O Sr já foi a São Paulo ou Rio de Janeiro?
Eusébio; "Só fui a Manaus e não gostei, não vi humanidade, meus pés estavam em brasa, não via a hora de voltar."
Vargas: Posso fazer ume pergunta indiscreta?
Eusébio: "Tu tens medo de morrer?"
Vargas: Tenho.
Eusébio: "Eu também, pode falar."
Vargas: Que porra é essa de viver tipo bicho numa utopia ridícula quase infantil?
Eusébio; "Ouvi falar do Saara, imenso deserto, tribos, vidas, morais diversas. É um erro achar que não existem Oásis, extensões, iluminados."
Eusébio: "Já posso dizer que a comunidade é imensa, as mulheres são lindíssimas, o amor é direto."
Vargas: Mas vocês andam a cavalo, de carroça, bebem água da chuva, evitam ao máximo o contato com "os homens", é bom viver assim?
Eusébio: "Todos que estão aqui vieram por vontade própria, nenhum voltou."
Vargas: Então o Sr acha que a humanidade não vale a pena?
Eusébio; "Claro que vale, mas o que vocês vivem não é a humanidade, humanidade é muito mais.”
Vargas: O Sr se acha uma espécie de Robin Wood?
Eusébio: "Não sei quem é, mas se é como buscar a riqueza de quem tem, mas não é sua, isso nós somos especialistas."
Vargas: Com a dura e cruel face das nossas polícias se voltando contra o Sr e seu bando, quantos anos o senhor acha que vai viver?
Eusébio: "Mais do que você, ninguém nos acha, nós somos mortos, ninguém morre duas vezes, eu vou até os cem anos. O lucro é o nosso armazém, vamos lá, pegamos fartamente e sumimos até a próxima empreitada, nós enfraquecemos o poder, roubamos, e a vida vai passando confortável."
Vargas: Muito obrigado pela entrevista, seu Eusébio.
Eusébio: “Vocês sabem o que foi acertado?"
Vargas: Como assim?
Eusébio: "Para sentir a sinceridade nós matamos um da equipe."
Vargas: Mas nós estamos do lado de vocês, vamos espalhar a mensagem.
Eusébio: "Vale o falar, depois de falado entra para o inconsciente coletivo e o vento leva, não precisa da fofoca de vocês. Morre um e tá acabado ou morre todos."
Vargas: O Senhor sabe que não vamos aceitar um crime desses!
Eusébio: "Os criminosos aqui são vocês, a morte só parece ruim, coragem."
Vargas: Mas como pode querer matar um inocente e ainda dizer que luta por justiça?


Eusébio: "Pelo jeito o Sr. conhece todos os membros da sua equipe."
Vargas: Sim, conheço.
Eusébio: "Incluindo o motorista que lhes trouxe?"

Parte II;
Cabra Moacir:


Vargas: Sim, é o seu Moacir, nos trouxe até aqui, dois dias de viagem, excelente guia e mateiro.
Eusébio: "Pois é, hoje trouxe vocês, há duas semanas trouxe os volantes e as milícias mataram quinze dos nossos, oito mulheres, três crianças e quatro velhos, os únicos que estavam no acampamento, pois estávamos em missão."
Vargas; Mas não é possível, o Sr. deve estar enganado, se ele tivesse feito isso acha que teria peito de voltar aqui?
Eusébio: "Se digo que é ele, é ele! Onde boto o olho boto à bala e nunca esqueço uma carranca. Trouxe porque achou que não seria reconhecido, mas já o tinha visto rondando com os puliça e de mais a mais Marleninha sobreviveu. Levou seis balaços e se fez de morta. Marleninha, venha cá! Vargas estremeceu ao ver a mulher com o rosto deformado pelos balaços. É esse o cabra? Perguntou Eusébio. O único olho da mulher lacrimejou, tentou cuspir em Moacir, mas a boca mal costurada só conseguiu babar."
Marleninha: "É ele, juro por esse meu olho que a terra há de comer."
Eusébio: "Pode ir embora, disse para a mulher que se retirou capengueando."
Eusébio: "Como queres morrer, perguntou a Moacir que já tinha uma corda no pescoço e todos os dentes quebrados a coronha de escopeta."
Moacir: "Como  homem."
Eusébio: "Mas tu não é homem, estás vestido de homem, mas não é homem. Morrerás como mulher. Mulher doente. Morrerás de parto, parto pelo cu."
Vargas: Mas seu Eusébio, isso é um absurdo, serás tão cruel quanto aqueles a quem combate.
Eusébio: "Queres fazer companhia ao alcagüete?" Vargas engoliu em seco e silenciou.
Eusébio:"Amarelinho! Zé Bahia! Gritou o chefe, podem empalar o cabra."


A equipe de reportagem demorou seis semanas para achar o caminho de volta. Todos voltaram com malária dos confins do sertão.

Parte III:
O Final

São Paulo, 11 e 16 da manhã, Moacir  atende o telefone

Eusébio: Oi caboclo.
Moacir: Quem fala??
Eusébio; Zapata, Lampião, Che Guevara, La Marca, Marighella e todos os guerrilheiros urbanos e os assassinados no Araguaia, tu achas que sou ignorante? Já li e continuo lendo mais de seis mil livros e tenho só 54 anos.
Moacir: Seu Eusébio poderímaos marcar mais uma entrevista, eu poderia fazer umas filmagens do senhor e seu batalhão, seria bom, o povo talvez gostasse e...
Eusébio: Não, o povo ta lavado cerebral e nós somos os bandidos e os mocinhos são as corporações, farmacêuticas, de agrotóxicos, armamentos. Todas acobertadas pelos estadunidenses e Israel, as vezes a comunidade européia acompanha, quando convém. A ONU esta completamente desmoralizada e não serve para nada. Nós vamos sumir na selva e abandonar de vez o ideal de um mundo melhor para todos.
Moacir: Mas vocês estão sendo perseguidos, mataram muitos policiais e eles...
Eusébio: E vamos matar todos que aparecerem pelo nosso caminho. De hoje em diante só levamos os ferros , não tem mais rádio, celular, computador, nada que um satélite possa nos localizar. Os índios nos acolhem e não paramos mais e a floresta é imensa. Podem passar cinquenta anos nos procurando.
Moacir: Mas os ideais, a revolução e a conscientização do povo?
Eusébio: Vai para a puta que te pariu, tu só não morre agora porque estamos no telefone a quilômetros de distância, pois sei que o que queres é reportagem, sabes que nossa luta é suicida e o poder de certo modo já chegou ao povo. Escreve aí: "O capitão Eusébio, filho de Belzebu, conclama a todos os brasileiros a se revoltar contra qualquer tipo de opressão, por menor que pareça ser e se revolte. Assumam o destino de suas vidas e pautem os programas de governo em regiões organizadas. E para os torturadores  e militares aposentados e acomodados com seus crimes, eu aviso, todos se não morrerem antes receberão uma visita kkkkrrrrrrbbbkarrbb....bbbbbbzzzzzzzzzz...
Moacir : Alô, alô, seu Eusébio, seu Eusébio...merda, caiu a ligação.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Crise, luta e esperança

Por Miguel Urbano Rodrigues


A História ensina-nos e hoje, a vida confirma-o uma vez mais: não há impérios eternos. No entanto, é inevitável que a actual crise civilizacional “conduzirá ao desmoronar do capitalismo ou a uma era de barbárie”. Generalizar a compreensão do presente momento histórico por um sempre crescente número de pessoas é uma tarefa imperativa que nenhum revolucionário pode recusar.

O fim da atual crise de civilização é imprevisível. Inevitável, conduzirá ao desmoronar do capitalismo ou a uma era de barbárie.
Prever datas para o desfecho seria, porém, um exercício de futurologia.
Mas uma certeza se esboça já no horizonte: a derrota espera o imperialismo nas guerras criminosas que os EUA desencadearam para manter e ampliar o sistema de dominação mundial do capital.

Os EUA estão atolados em guerras perdidas no Afeganistão e no Iraque e a sua aliança com o Estado neofascista de Israel é um factor de tensão permanente no Médio Oriente. As estratégias agressivas que desenvolvem na América Latina, na África e na Ásia Oriental são também incompatíveis com as aspirações dos povos ameaçados, contribuindo para o subir da maré anti-americana.
Nesta fase, iniciada com as agressões no Médio Oriente e Ásia Central, o imperialismo estadunidense encontrou situações históricas muito diferentes da que precedeu o seu envolvimento no Vietnam e a humilhante derrota que ali sofreu. Nos EUA somente uma minoria percebeu que a guerra estava perdida quando Giap desfechou a ofensiva do Tet. A resposta de Johnson e Kissinger, cedendo aos generais do Pentágono, foi a ampliação da escalada. A agressão alastrou para o Laos e Washington enviou mais tropas para a fornalha vietnamita, semeando a morte e a devastação no Sudeste Asiático.
Transcorreram anos até à retirada dos EUA. Os povos foram lentos a compreender que o desfecho da trágica agressão ao Vietname era o prólogo de uma crise que significou a perda da hegemonia que Washington exercia sobre a economia do Ocidente desde o final da IIa. Guerra. Nada foi igual desde então.
Mas o establishment norte-americano não extraiu as lições implícitas no fracasso das guerras da Coreia e do Vietname. A estratégia foi reformulada, mas a ambição imperial permaneceu, assumindo novas formas.
O cenário das agressões adquiriu proporções planetárias a partir do desaparecimento da União Soviética.
A primeira guerra do Golfo foi decidida no final da presidência de George Bush pai perante a passividade da URSS, prestes a desintegrar-se. Washington proclamou então que a humanidade havia entrado numa era de paz permanente, sob a égide dos EUA, garantes da Nova Ordem Mundial. Um obscuro epígono do capitalismo, Francis Fukuyama, saudou a morte do comunismo e anunciou o «Fim da História», apontando o neoliberalismo como a ideologia para a eternidade.
O desmentido aos profetas imperiais não tardou.
Quando as torres do Word Trade Center desabaram, o mundo entrou numa fase de turbulências anunciatórias de uma profunda crise de civilização. Após o 11 de Setembro de 2001, Bush filho, alegando necessidade de uma «cruzada contra o terrorismo», e afirmando que Deus estava com os EUA, invadiu o Afeganistão, semeando a morte a destruição naquele remoto país da Ásia Central.
Depois chegou a segunda guerra iraquiana, iniciada à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A terra milenária da Mesopotâmia foi ocupada, os seus museus saqueados, o seu petróleo e gás entregues às petrolíferas dos EUA, dezenas de milhares de iraquianos chacinados.
Autoproclamando-se nação predestinada, com vocação para redimir a humanidade dos seus pecados, os EUA, sob a batuta da extrema-direita republicana, passaram a atuar como um Estado terrorista, disseminando o terrorismo pelo planeta.
Essa trágica situação somente foi possível pela cumplicidade da União Europeia, do Japão e do Canadá, estados ditos civilizados. Com o seu aval ao establishment bushiano abriram as portas à barbárie.
A eleição de um negro para a Presidência dos EUA gerou a ilusão de que o pesadelo iria findar. Mas Barack Obama, que chegou à Casa Branca com o apoio entusiástico do grande capital, mudou o discurso, mas manteve a politica imperialista. Pior, agravou-a.

O PÂNTANO AFEGÃO

Admiradores do Presidente norte-americano afirmam que ele é um humanista, vítima de uma engrenagem que o instrumentaliza. Mas a defesa que dele fazem não convence.
O Prémio Nobel da Paz tomou decisões que contribuíram para aprofundar a crise mundial. No plano interno a sua política tem sido, no fundamental, de capitulação perante as exigências do grande capital. Significativamente, o seu secretário do Tesouro, Geithner é um político que goza da confiança total de Wall Street.
No terreno internacional, o Presidente aumentou muito o orçamento do Pentágono, pediu ao Congresso verbas colossais para as guerras asiáticas, enviou mais 30.000 militares para o Afeganistão, e faz da vitória nessa guerra uma prioridade da sua politica exterior.
Entretanto, acumula derrotas no teatro afegão. A ofensiva no Helmand foi um fracasso; a de Kandahar foi sucessivamente adiada.
A divulgação dos documentos secretos oferecidos pela WikiLeaks ao NY Times, ao Guardian e ao Der Spiegel instalou o pânico na Casa Branca, e o inquérito do Pentágono sobre a fuga de informações classificadas abalou fortemente a confiança dos americanos no sistema de segurança do Departamento de Defesa.
Em declarações recentes, Julian Assange, o australiano que criou o WikiLeaks, revelou que crimes cometidos pelo exército dos EUA excedem em horror os massacres do Vietnam. A chamada Força Tarefa Conjunta 373 tem por missão abater secretamente chefes talibãs e elementos suspeitos de pertencer à Al Qaeda.
Grupos de matadores especiais intitulados Kia são responsáveis pelo assassínio de centenas de civis em ataques cujas vítimas são designadas nos relatórios como «mortos em ações».
O rol dos crimes das tropas de ocupação da NATO também ocuparia muitas páginas. A chacina de Kunduz, da responsabilidade do contingente alemão, abalou o governo da chanceler Merkel, mas foi apenas uma das muitas matanças de civis cometidas pelas tropas de ocupação.
Julian Assange cita como exemplo das atrocidades dos aliados o bombardeamento de uma aldeia por uma força polaca. Dezenas de pessoas ali reunidas para festejar um casamento morreram num ato de retaliação concebido com crueldade.
Rotineiramente, o alto comando norte-americano promove inquéritos nesses casos para «apurar responsabilidades». Mas ninguém é punido.
Hamid Karzai, o presidente fantoche, protesta e pede providências, mas a indignação é simulada.
Milhares de civis nas aldeias da fronteira paquistanesa foram mortos pelos bombardeamentos realizados pelos drones – os aviões sem piloto. O atual comandante Supremo, o general Petraeus, define essas «missões» assassinas como indispensáveis ao êxito da nova estratégia de luta «contra o terrorismo»

FARSA DRAMÁTICA

Hillary Clinton, o vice-presidente Joe Binden e James Baker, o secretário da Defesa, têm visitado frequentemente o Afeganistão.
A encenação pouco varia. Deslocam-se para levantar o moral das tropas, dizer lhes que estão a lutar pela pátria, pela liberdade e a democracia contra o terrorismo, que a luta exige grandes sacrifícios, mas que a vitória na guerra afegã é uma certeza.
Todos aproveitam para pedir ao Presidente Karzai que «governe democraticamente», afaste colaboradores que não merecem a confiança dos EUA, e ponha termo à corrupção implantada no país.
Karzai faz promessas, reúne assembleias tribais que lhe aprovam a política e repete que é fundamental negociar com os «talibãs recuperáveis». É ele, chefe da máfia, o primeiro responsável pelo sumiço de milhares de milhões de dólares doados em conferências internacionais para o desenvolvimento e reconstrução do país, destruído pela invasão americana. A realidade não alterou o método. Em Kabul, a última dessas conferências acaba de aprovar mais uns milhares de milhões para «ajudar» o Afeganistão.
Entretanto, a produção de ópio, insignificante à data da invasão, aumentou 90% na última década.
É do domínio público que familiares do presidente mantêm íntimas ligações com o negócio da droga.
Nas suas periódicas visitas ao Paquistão, Hillary Clinton admoesta o presidente Asif Zardari pela insuficiência do esforço de guerra nas áreas tribais do Waziristão na fronteira do Afeganistão. Joe Binden repete-lhe o discurso. Ambos insinuam cumplicidade do Exército com as chefias talibãs.
O Primeiro-ministro britânico Cameron ao visitar o país foi tão longe nas suas críticas que o governo de Islamabad cancelou uma visita a Londres do chefe dos serviços de inteligência paquistaneses convidado pelo Intelligence Service.
Crônicas de correspondentes europeus em Kabul e declarações de soldados dos EUA regressados da guerra afegã esclarecem que a moral das tropas de combate caiu para um nível muito baixo.
A demissão do general Stanley McChrystal, que criticara numa entrevista o presidente Obama, contribuiu para acentuar o mal-estar no Alto Comando. O general tem um currículo de criminoso, mas as suas opiniões sobre a condução da guerra são partilhadas por muitos oficiais.
Assim vão as coisas na guerra podre do Afeganistão.
No Iraque, a «pacificação» é um mito como demonstra o aumento de mortos em atentados bombistas em Bagdad e na região Norte, controlada pelos kurdos. O discurso de Obama aos veteranos deficientes, no dia 1 de Agosto, sobre a retirada das tropas foi um exercício de hipocrisia, semeado de mentiras e estatísticas falsas.
Na Palestina, Israel continua a bloquear Gaza, bombardeada com frequência, e amplia a construção de casas na Jerusalém árabe e em colonatos na Cisjordânia.
O Irã é atingido por novas sanções, aprovadas pelo Conselho de Segurança, e a CIA promove atentados terroristas no Kuzistão, fronteiro do Iraque, e na província baluche, vizinha do Paquistão.
Na América Latina, Uribe, nas vésperas de ceder a presidência a Juan Manuel Santos, seu filhote político, criou uma crise com a Venezuela bolivariana ao forjar acusações sobre a presença das FARC em território daquele país. Os EUA, que vão instalar 7 novas bases militares na Colômbia, aprovaram imediatamente a provocação.

XXX

Neste contexto de escalada militar em múltiplas frentes, a crise interna prossegue. O magro crescimento do PIB esconde a realidade.
O número de casas vendidas é o mais baixo dos últimos anos. Milhares de empresas fecham todos os meses. Em cidades outrora famosas pela riqueza, como Detroit e Pittsburg, bairros inteiros estão hoje desabitados. O desemprego alastra. Nas universidades aumenta o ensino elitista. A tão elogiada reforma dos «cuidados de saúde» dificultou mais o acesso de milhões de imigrantes ilegais aos hospitais (v.Fred Goldstein, odiario.info, 22.04.2010).
A Finança, essa prospera. Os gestores dos grandes bancos continuam a receber reformas e prémios fabulosos. Um desses gigantes, o Wells Fargo, acumulou lucros de milhares de milhões de dólares com a lavagem do dinheiro da droga (v.Cadima, «avante!», 29 .07.2010).
O controle hegemônico do sistema mediático pelo grande capital impede, porém, a humanidade de tomar consciência da profundidade da crise. Nos EUA, pólo do sistema, o discurso do Presidente transmite um panorama otimista da situação, anunciando melhores tempos e vitórias imaginárias.
Somente uma minoria de cidadãos, nos EUA, na Europa, e nos demais continentes estão em condições de decodificar o discurso da mentira irradiado pelo grande capital.
Para as forças progressistas ajudar os povos a compreender a complexidade e a extrema gravidade da crise do sistema é, por isso mesmo, uma tarefa revolucionária. Porque essa compreensão é fundamental para o incremento e dinamização da luta dos trabalhadores em cada país contra o projeto de dominação imposto pelo sistema que ameaça mergulhar a humanidade na barbárie.

Vila Nova de Gaia, 2 de Agosto de 2010

extraído d'ODiario.info