segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Exclusivo, entrevista com "seu" Eusébio

Parte I;
Vargas e Eusébio:

Vargas: E matar?

Eusébio: "Não tenho coragem, nem consigo pensar, só mato na correria e sem olhar pra trás, matar é muito triste."
Vargas: O Senhor se acha um cangaceiro moderno. Já ouviu falar de lampião?
Eusébio: "Nada, eu sou da natureza, eu escorrego, vôo, rastejo, que nem tu. Só que tu não sabes disso. Lampião não conheço, mas imagino que teria facilidades com ele."
Vargas: Lampião era uma espécie de bandoleiro revolucionário, o Sr. é bandoleiro ou revolucionário?
Eusébio: "Se queres destruir um guerreiro faze-o pensar sobre isso. Mas eu vou responder, pois tenho café no bule!"
Eusébio: "Eu sou bandoleiro e sou revolucionário, no Mato Grosso, no sopé da Amazônia, nas grotas, já atacamos remessa de lucro dos latifundiários, e também imagino um lugar melhor para todos, sou tão revolucionário quanto tu, a não ser que tu sejas um canalha."
Vargas: Mas o Sr não acha que esse tipo de ação só fortalece uma repressão mortal e avassaladora, além de diluir idéias tão nobres?
Eusébio: "Nos sertões é só o que funciona, na ausência do estado muitas normas são escritas com bravura, até involuntariamente, ou faz ou morre."
Vargas: O Sr já foi a São Paulo ou Rio de Janeiro?
Eusébio; "Só fui a Manaus e não gostei, não vi humanidade, meus pés estavam em brasa, não via a hora de voltar."
Vargas: Posso fazer ume pergunta indiscreta?
Eusébio: "Tu tens medo de morrer?"
Vargas: Tenho.
Eusébio: "Eu também, pode falar."
Vargas: Que porra é essa de viver tipo bicho numa utopia ridícula quase infantil?
Eusébio; "Ouvi falar do Saara, imenso deserto, tribos, vidas, morais diversas. É um erro achar que não existem Oásis, extensões, iluminados."
Eusébio: "Já posso dizer que a comunidade é imensa, as mulheres são lindíssimas, o amor é direto."
Vargas: Mas vocês andam a cavalo, de carroça, bebem água da chuva, evitam ao máximo o contato com "os homens", é bom viver assim?
Eusébio: "Todos que estão aqui vieram por vontade própria, nenhum voltou."
Vargas: Então o Sr acha que a humanidade não vale a pena?
Eusébio; "Claro que vale, mas o que vocês vivem não é a humanidade, humanidade é muito mais.”
Vargas: O Sr se acha uma espécie de Robin Wood?
Eusébio: "Não sei quem é, mas se é como buscar a riqueza de quem tem, mas não é sua, isso nós somos especialistas."
Vargas: Com a dura e cruel face das nossas polícias se voltando contra o Sr e seu bando, quantos anos o senhor acha que vai viver?
Eusébio: "Mais do que você, ninguém nos acha, nós somos mortos, ninguém morre duas vezes, eu vou até os cem anos. O lucro é o nosso armazém, vamos lá, pegamos fartamente e sumimos até a próxima empreitada, nós enfraquecemos o poder, roubamos, e a vida vai passando confortável."
Vargas: Muito obrigado pela entrevista, seu Eusébio.
Eusébio: “Vocês sabem o que foi acertado?"
Vargas: Como assim?
Eusébio: "Para sentir a sinceridade nós matamos um da equipe."
Vargas: Mas nós estamos do lado de vocês, vamos espalhar a mensagem.
Eusébio: "Vale o falar, depois de falado entra para o inconsciente coletivo e o vento leva, não precisa da fofoca de vocês. Morre um e tá acabado ou morre todos."
Vargas: O Senhor sabe que não vamos aceitar um crime desses!
Eusébio: "Os criminosos aqui são vocês, a morte só parece ruim, coragem."
Vargas: Mas como pode querer matar um inocente e ainda dizer que luta por justiça?


Eusébio: "Pelo jeito o Sr. conhece todos os membros da sua equipe."
Vargas: Sim, conheço.
Eusébio: "Incluindo o motorista que lhes trouxe?"

Parte II;
Cabra Moacir:


Vargas: Sim, é o seu Moacir, nos trouxe até aqui, dois dias de viagem, excelente guia e mateiro.
Eusébio: "Pois é, hoje trouxe vocês, há duas semanas trouxe os volantes e as milícias mataram quinze dos nossos, oito mulheres, três crianças e quatro velhos, os únicos que estavam no acampamento, pois estávamos em missão."
Vargas; Mas não é possível, o Sr. deve estar enganado, se ele tivesse feito isso acha que teria peito de voltar aqui?
Eusébio: "Se digo que é ele, é ele! Onde boto o olho boto à bala e nunca esqueço uma carranca. Trouxe porque achou que não seria reconhecido, mas já o tinha visto rondando com os puliça e de mais a mais Marleninha sobreviveu. Levou seis balaços e se fez de morta. Marleninha, venha cá! Vargas estremeceu ao ver a mulher com o rosto deformado pelos balaços. É esse o cabra? Perguntou Eusébio. O único olho da mulher lacrimejou, tentou cuspir em Moacir, mas a boca mal costurada só conseguiu babar."
Marleninha: "É ele, juro por esse meu olho que a terra há de comer."
Eusébio: "Pode ir embora, disse para a mulher que se retirou capengueando."
Eusébio: "Como queres morrer, perguntou a Moacir que já tinha uma corda no pescoço e todos os dentes quebrados a coronha de escopeta."
Moacir: "Como  homem."
Eusébio: "Mas tu não é homem, estás vestido de homem, mas não é homem. Morrerás como mulher. Mulher doente. Morrerás de parto, parto pelo cu."
Vargas: Mas seu Eusébio, isso é um absurdo, serás tão cruel quanto aqueles a quem combate.
Eusébio: "Queres fazer companhia ao alcagüete?" Vargas engoliu em seco e silenciou.
Eusébio:"Amarelinho! Zé Bahia! Gritou o chefe, podem empalar o cabra."


A equipe de reportagem demorou seis semanas para achar o caminho de volta. Todos voltaram com malária dos confins do sertão.

Parte III:
O Final

São Paulo, 11 e 16 da manhã, Moacir  atende o telefone

Eusébio: Oi caboclo.
Moacir: Quem fala??
Eusébio; Zapata, Lampião, Che Guevara, La Marca, Marighella e todos os guerrilheiros urbanos e os assassinados no Araguaia, tu achas que sou ignorante? Já li e continuo lendo mais de seis mil livros e tenho só 54 anos.
Moacir: Seu Eusébio poderímaos marcar mais uma entrevista, eu poderia fazer umas filmagens do senhor e seu batalhão, seria bom, o povo talvez gostasse e...
Eusébio: Não, o povo ta lavado cerebral e nós somos os bandidos e os mocinhos são as corporações, farmacêuticas, de agrotóxicos, armamentos. Todas acobertadas pelos estadunidenses e Israel, as vezes a comunidade européia acompanha, quando convém. A ONU esta completamente desmoralizada e não serve para nada. Nós vamos sumir na selva e abandonar de vez o ideal de um mundo melhor para todos.
Moacir: Mas vocês estão sendo perseguidos, mataram muitos policiais e eles...
Eusébio: E vamos matar todos que aparecerem pelo nosso caminho. De hoje em diante só levamos os ferros , não tem mais rádio, celular, computador, nada que um satélite possa nos localizar. Os índios nos acolhem e não paramos mais e a floresta é imensa. Podem passar cinquenta anos nos procurando.
Moacir: Mas os ideais, a revolução e a conscientização do povo?
Eusébio: Vai para a puta que te pariu, tu só não morre agora porque estamos no telefone a quilômetros de distância, pois sei que o que queres é reportagem, sabes que nossa luta é suicida e o poder de certo modo já chegou ao povo. Escreve aí: "O capitão Eusébio, filho de Belzebu, conclama a todos os brasileiros a se revoltar contra qualquer tipo de opressão, por menor que pareça ser e se revolte. Assumam o destino de suas vidas e pautem os programas de governo em regiões organizadas. E para os torturadores  e militares aposentados e acomodados com seus crimes, eu aviso, todos se não morrerem antes receberão uma visita kkkkrrrrrrbbbkarrbb....bbbbbbzzzzzzzzzz...
Moacir : Alô, alô, seu Eusébio, seu Eusébio...merda, caiu a ligação.