quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O Perigoso Preço da Felicidade


Levou a droga, o couro, o bobo e os pisantes do cara. Deu  uma joelhada nas bolas, um Zidane no melão e deixou o rapaz caído quase com a cara no cagadouro do minúsculo banheiro do boteco pé sujo do Zé. Voltou normalmente para a mesa da malandragem enxugando as mãos em uma toalhinha de papel vagabundo. Já estava no segundo martelo de pinga quando Gordo se acordou com forte dor no saco, nariz ensanguentado e metade dos cabelos sujos de merda do vaso entupido do cubículo que ostentava as letras WC na porta corroída por cupins. O otário sem pó, sem carteira, relógio e tênis, passou uma água na cara e saiu cambaleando do boteco, montou na velha Honda cinquentinha e partiu sem dizer palavra. Josué nem olhou para o indivíduo e continuou a vangloriar-se perante a plateia que sacara tudo o que tinha acontecido. O sol castigava a velha capital  úmida e quente. Calor que as 3 horas da tarde daquele verão de janeiro só era amenizado pela quantidade de árvores que existiam na antiga Rua do Arvoredo. O boteco do Zé ficava no térreo daquilo que fora uma tradicional casinha de arquitetura lusa e hoje um pardieiro. 
Fez-se um pequeno silêncio até o turco Elias perguntar – Então, Josué, saiu ontem de cana, onde tu tá morando?
- Por enquanto em cima dos sapatos, mas assim que eu fizer um troco vou abrir um salão de cabeleireiro, pois esse tempo em que passei no colégio fiz um curso e tenho até certificado. Nesse momento ouviu-se o ronco da cinquentinha subindo à calçada e todos olharam. O gordo com a moto ligada entre suas pernas, braço esticado na direção de Josué e em sua mão uma mini Beretta calibre 22, dessas de guardar em bolsinha de madame, ato seguido de um estalo, um leve ‘clac’ e o quase sussurro de Josué: ai! Com um pequeno furo no peito já com filete de sangue, o corpo desabou da cadeira. Gordo desceu da moto e veio até a mesa que como num passe de mágica agora sustentava o 38 do Adão, que mantinha a mão espalmada ao lado do berro, este com o cano virado para a pança do gordo. Miraram-se por segundos, gordo tinha sangue nos olhos e merda seca nos cabelos. Adão o encarava impassível com seu velho olhar amarelado pela hepatite crônica. Zé, atrás do balcão continuava imóvel com seus braços cruzados, camiseta regata outrora branca, hoje amarelada pelo uso e pelo suor, pano da mesma cor atirado sobre o ombro esquerdo e o eterno palito de dentes no canto direito da boca, notou um acordo tácito entre gordo e Adão. Turco Elias, imóvel, parecia não estar ali, apesar de estar sentado entre o cadáver e o calibre 38 do malandro. Gordo abaixou-se e recuperou seus pertences, sentou-se na cadeira do morto e pôs nos pés seus tênis de 700 reais. Meteu novamente a mão no bolso do presunto e tirou a pacoteira com a droga. Adão chupou os dentes e tamborilou os dedos ao lado do oitão. Gordo, mirando-o com cara feia, entendeu o recado. Rasgou com força o grande envelope plástico em duas partes quase iguais. Botou a metade maior em frente a Adão. Virou as costas, guardou os bagulhos, sentou na moto ainda ligada e sumiu. Em segundos o bar ficou vazio, apenas Zé recolhia os copos com o cadáver de Josué entre as pernas enquanto ouvia o barulho da sirene cada vez mais próxima pensava: O filho da puta do turco Elias aproveitou a muvuca e saiu sem pagar a conta.







Simch

sábado, 3 de outubro de 2015

O melhor Amigo


A lâmina do machado decepou o braço esquerdo de um só golpe, o engasgo de horror o despertou do pesadelo. Acordou com o membro dormente pelo peso do corpo em mais uma péssima noite de desmaio alcoólico. Sentiu a ânsia de vômito entremeada de calafrios apesar do abafado meio-dia do verão tropical. Abriu a velha geladeira vazia na triste ilusão de encontrar uma cerveja. Bebeu água da pia e teve de correr ao fétido banheiro para não vomitar no corredor. Depois olhou o rosto envelhecido no espelho rachado e viu os músculos da face tremer ininterruptamente como a executar uma muda sinfonia de tiques nervosos. Voltou à cozinha e com a alma no escuro pensou na luz debaixo da pia, o brilho estava exatamente entre a água sanitária e o desinfetante; Pereirinha, álcool 90 graus, mais que depressa agarrou a velha e vazia leiteira metálica e despejou metade da garrafa completando com um pouco de água, em seguida segurando com as duas mãos minimizou a labiríntica tremedeira com um imenso gole. A terrível sensação de envenenamento fez com que, como um cospe fogo, regurgitasse violentamente até expelir o esverdeado líquido que sabia ser a bílis. O segundo gole desceu queimando, mas não voltou igual ao primeiro e como um passe de mágica consumiu com o tremor, os tiques e o mal estar. Fez a barba na firmeza das mãos e antes de sair mirou com gratidão para debaixo da pia deixando escapar um; "fique quietinho aí", como se falasse a um cachorro engarrafado.


Simch

quinta-feira, 30 de julho de 2015

As Anáguas Molhadas

Nada n'água, anágua da mulher/amor
Que nada, não nada, mas caminha sobre a água
E foi a águia que pegou a sereia d'água
Disse; tu não és águia e sim água e nado em ti
Mas a égua esperava mais do que belas saias
Não tardava a espiar as coxilhas dos desaguados
Foi então que a confusa águia pousou na égua
Desencantada com os murmúrios dos mortos desaguados
Libertandando a sereia d'agua que era égua, águia e d'agua
Assim se fez a esperança, de que um dia, a águia, 
Em cima da égua vomitasse sobre um copo vazio, 
Que esperava se encher de águias
E em plena comunhão dos 'ás' e 'és' que surgiu a cobiça
Cobiça dos 'd'os'e d'olhos
Assim como os alados caralhos que alertados pelos
Vorazes d'olhos farejaram sereias e anáguas
E a mulher, mãe d´água, pai d´égua, que esperava um dia ser 
Voar como uma águia, nada mais era
Que a terra pés, com suas anáguas, olhos d'agua e todas as solidões 
Fantasias de sereia a espera do não digo, mas do falo voador
Seguiu, não para Acrópole em Atenas e sim para a cópula sem anáguas 
Com olhos d'agua, sonhos de sereias e voos de águias

Simch e Luiz Fernando Costa (Gordinho)