segunda-feira, 31 de março de 2014

Os Medonhos


No final dos anos setenta e todos os oitenta do século passado, a velha guarda da Bronze estava casada, trabalhando, morta, no hospício ou na cadeia. Nós, os herdeiros nos digladiavam no futebol e basquete. Por outro lado e misturado, tinham os ladrões, os drogados e muita malandragem solta. Eu, com 16 anos disputava a liderança da Bronze com o falecido Jorge Alaor Guerreiro, vulgo Huga. Um terror em pessoa. Naquela época, o hoje jornalista e artista plástico, Simch, eu. Era conhecido como ' Alemão Eduardo da Bronze'. Mas voltando ao assunto, o Huga e eu nos respeitávamos eu coordenava a gurizada mais abonada e ele a chinelagem geral. Só que todo chinelo quer crescer, sair da chinelagem, então eu quem dizia o que era e o que não era e até ele concordava, pois, humilde, mal tratado afú na infância, era um adolescente maluco. Simplesmente uma pessoa desequilibrada, imprevisível e perigosa. Mas eu não estava nem aí. Jovem forte, alto, fazia um boxe e andava sempre com uma quadrilha, ou digamos vários amigos. Porém, vindo de uma família de intelectuais, eu também estudava e lia muito e de tudo, às vezes sem entender a metade, mas Freud, Marx, Einstein e Darwin foram devorados. Isso antes de entrar na faculdade. O dilema que surgiu com essas leituras, foi que todo um universo se abriu e ficava difícil ser chefe de gangue de piás com essa 'confusão' na cabeça. Então decidi decepcionar meus mais ferrenhos adeptos. Primeiro me deixei apanhar por um trouxa que eu arrebentaria com um soco só. Depois pregava que as brigas de turma , quando sobrava só um dos adversários, o grupo inteiro não devia ir massacrar, como era nosso costume anterior. E nessa minha divagação mental, muitos começaram a se questionar, até quebrar a cabeça, outros se revoltaram contra mim e tomaram o devido pau, como o falecido Huga, mas não conto vantagens sobre pessoas que já morreram e as testemunhas, Maninho, Rogérinho e Carequinha, também já foram. Só posso dizer que o Huga era muito violento, mas lerdo e assustado. E eu era o homem metralhadora, dava 25, 30 diretos sem pausa. Aí vocês imaginem o estrago. Os anos se passaram, entrei na faculdade, namorei um monte, me formei, arrumei umas brigas que me levaram ao hospital por mais de vinte dias. Não desisti de ser eu mesmo e a arte e o desenho sempre esteve no meu sangue, herdados da família. O mundo deu muitas voltas. Mas, falando em Alto da Bronze, jamais esquecerei uma cena felliniana em que dobro uma esquina, eu à frente, logo atrás Huga, Cezinha, Márcio, Maninho, Azeitona, Juca Bala, Rogerinho, Danilo, Capeca, Simbá, Harvey, Paulo Aze, Sarará, Beça, Jorge Nei, Gaspar, Bururú, Newton, Paulinho Maria, Pipo, Magro Darwin, Viti, Lauro Foguinho, Perereca, Nego Loco, Guile, Toco, Spock, Amarelinho, Cascão e mais uns dez ou doze medonhos, pois saíamos da nossa pelada domingueira embaixo dos trilhos do aeromóvel na volta do Gasômetro, ou baixada, como também era conhecida. Ao nos enxergar, uma rua inteira se recolhia, primeiro os bons rapazes e em seguida suas famílias entravam tirando as cadeiras da calçada, costume dos domingos daquela época. E isso se repetia em uma grande área do centro de Porto Alegre, nossos domínios, que iam da volta do gasômetro até a ladeira Gen. Alto e para os lados, toda Washington Luiz até os Açorianos e do outro, a Rua dos Andradas até esquina João Manuel. Todos se refugiavam nas casas, sumiam para dentro dos botecos e a estrada de paralelepípedos até a Vasco Alves e asfaltada dali em diante ficava limpa para passar a Escola Superior do Alto da Bronze. Heheehehehehehe. Hoje, acho graça desses acontecimentos, mas prova que o fogo da juventude, ‘tipo bicho solto’, assusta muito a sociedade. E não vínhamos com intenção nenhuma a não ser de chegar ao boteco da esquina da Rua Vasco Alves com a Duque de Caxias para tomar algumas cevas bicar as gatas que já sabiam que chegaríamos e ouvir música na velha máquina de colocar fichas.

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