domingo, 25 de janeiro de 2009

O melhor amigo

A lâmina do machado decepou o braço esquerdo de um só golpe. O engasgo de horror o despertou do pesadelo. Acordou com o membro dormente pelo mau jeito do peso do corpo em mais uma péssima noite de desmaio alcoólico. Sentiu grande ânsia de vômito entremeada de calafrios apesar do abafado quarto de pensão no meio-dia do verão tropical. Abriu a velha geladeira vazia na triste ilusão de encontrar uma cerveja gelada. Bebeu água da pia e teve de correr ao fétido banheiro para não vomitar no chão. Depois olhou o rosto envelhecido no velho espelho rachado e viu os músculos da face a tremer ininterruptamente como a executar uma muda sinfonia de tiques nervosos. Voltou à cozinha e com a alma no escuro pensou na luz debaixo da pia, o brilho estava exatamente entre a água sanitária e o desinfetante. Pereirinha, álcool 90 graus. Mais que depressa agarrou a velha e vazia leiteira metálica e despejou metade da garrafa de álcool completou com pouca água e segurando com as duas mãos minimizou a labiríntica tremedeira e deglutiu um imenso gole. A sensação de envenenamento terrível fez com que como um cospe fogo regurgitasse violentamente até expelir um esverdeado líquido que sabia ser a bílis. O segundo gole desceu queimando, mas não voltou como o primeiro e tal um passe de mágica consumiu com o tremor, os tiques e o mal estar. Fez a barba na firmeza das mãos e antes de sair mirou com gratidão para debaixo da pia e deixou escapar um; "fique quietinho aí", como se falasse a um cachorro engarrafado.

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